5 de out. de 2013





Mestre Daniel Freitas foi uma boa idéia alvirrubra que não deu certo. Talvez porque seja impossível algo dar certo na fogueira de vaidades do Clube Náutico Capibaribe. Mesmo de longe, entretanto, sempre é importante ouvir e compreender a visão de um profissional de futebol sobre a realidade dos Aflitos.

Espero que curtam a entrevista. Ela diz muito sobre o vendaval 2013 por estas bandas...

BLOG - Como considera sua passagem pelo Náutico?

DF- Considero minha passagem como razoável, pelos seguintes aspectos: - conheci dirigentes sérios que realmente estão tentando implantar uma outra filosofia de trabalho no clube, casos do Eduardo Moraes (Vice-presidente Administrativo do clube), Armando Ribeiro, Carlos Hunka e Alexandre Homem de Melo, mas que por questões políticas não tem conseguido implantar suas idéias. Tive pouco tempo para conhecer a instituição, dirigentes e funcionários, quando estava começando a entender o funcionamento político do clube e comecei a separar o joio do trigo, ou seja separar os dirigentes sérios dos que apenas jogam pra galera, identificar os funcionários acomodados e que se mantem em seus postos graças ao apadrinhamento de alguns dirigentes, tive meu trabalho interrompido. Nenhum gestor consegue identificar e propor soluções para todos os problemas de uma instituição centenária e tão complexa em apenas seis meses, esse é um processo longo e que certamente vai causar desconforto. Sai bastante frustrado, mas de cabeça erguida, pois sei que em todas as atitudes que tomei, agi de forma profissional, transparente e ética com a instituição e os motivos que levaram à minha demissão eram predominantemente políticos, pois não fui colocado no cargo com a benção de alguns "donos" do clube. Sei que com as amizades que construí, pude trocar algumas idéias importantes e semear conceitos que mais cedo ou mais tarde devam ser implantados se de fato o clube quiser crescer e mudar de patamar. Certamente o fato de não ser pernambucano, não concordo com isso, mas também atrapalhou um pouco. A mudança do cenário político do clube durante a minha passagem pelo clube prejudicou decisivamente o meu trabalho.


BLOG – Quais os motivos da péssima campanha do Náutico na Série A 2013?

DF- Sem dúvida alguma o ambiente de instabilidade que foi criado desde a implantação do colegiado, que desencadeou uma série de decisões intempestivas, como afastamento de jogadores e demissão de treinadores, me refiro ao Mancini e principalmente ao Silas, que foi contratado já nas semifinais do Estadual, onde fomos eliminados em um jogo que fomos visivelmente prejudicados pela arbitragem, mas ainda assim ganhamos a partida. Quando foi demitido estávamos na terceira rodada do Brasileiro, e ainda teríamos uma parada de 28 dias, onde aconteceria a Inter temporada, que aliás foi planejada por ele junto com a comissão técnica, naquele momento seria possível um melhor conhecimento do elenco, a chegada de outros jogadores e a oportunidade para a implantação da sua filosofia de jogo. No entanto como não foi contratado pelo colegiado, foi avaliado com bastante má vontade e demitido de forma precoce. Não considero que o Náutico, esteja muito abaixo de Bahia, Portuguesa, Criciúma, Ponte Preta, Goiás, Vitoria e Atlético/PR em termos de elenco, a principal diferença nesse universo de clubes, tem sido a continuidade dos trabalhos, coincidentemente os que tem apresentado os melhores resultados tem sido os clubes que menos trocaram de treinador. Treinadores e jogadores não são máquinas ou peças que são trocadas de lugar e começam a render o máximo instantaneamente, levam algum tempo para se ambientar e poder render, por isso o ambiente que os cerca influi diretamente no desempenho. Vou citar apenas um exemplo que ilustra isso, o Bruno Colaço foi afastado e ficou treinando em separado por dois meses, período que tentei algumas vezes reverter tal decisão sem sucesso, hoje está atuando, nesse mesmo período foi contratado outro atleta pra a mesma posição, que segundo o colegiado seria a solução da lateral esquerda, mas que já foi devolvido após jogar poucas partidas. Isso sem dúvida reflete no grupo de jogadores e no nível das atuações.

BLOG- Quais seus conselhos para o Náutico não repetir os vexames de 2013?

DF-  Para que esse tipo de situação não ocorra novamente, o profissional contratado (treinador e gestor) precisa ter tempo para trabalhar, muitas vezes um bom trabalho não colhe bons frutos inicialmente, só que esse tipo de avaliação não deve ser feita no calor das emoções do pós jogo, seja na vitória ou na derrota, mas sim avaliado pelo dia a dia do trabalho e sob diversos ângulos. O departamento de futebol deve ser gerido de forma profissional, onde além dos jogadores, os profissionais do staff também sejam cobrados pelo desempenho, chega de apadrinhamentos. Se gestores vindo de fora do Recife são tão mal vistos, que se escolha alguém local para implantar essa filosofia de trabalho, mas que de fato tenha autonomia e principalmente respaldo pra tocar e curar as velhas feridas. A imagem que o colegiado deixou no mercado foi muito ruim, de um clube que solicita jogadores emprestados aos demais clubes e que depois de cinco seis jogos quer devolver os atletas, independente do contrato firmado. Isso inviabiliza futuras parcerias com clubes maiores, agentes e jogadores. Esse trabalho de resgate da credibilidade de honrar os compromissos tem que continuar sendo feito para não inviabilizar o clube no mercado, pois dessa forma apenas os aproveitadores firmarão parcerias com o clube. As manifestações da torcida são legitimas, desde que ocorram de forma civilizada, mas não podem pautar as decisões da direção do clube, pois sabemos que o torcedor é passional, um jogador e treinador passa de herói a vilão em questões de minutos, e na maioria das vezes sem implicações futuras, mas do ponto de vista da administração não pode ser assim.

BLOG- Qual o espaço para um superintendente de futebol no ambiente amador dos clubes pernambucanos?

DF- O espaço que o superintendente terá, dependerá única e exclusivamente da mentalidade dos dirigentes estatutários, pois sem esse respaldo e a devida autonomia o trabalho do executivo se esvazia no dia a dia, por conta das diversas intervenções dos diretores, descaracterizando um ambiente profissional. O futebol hoje é um grande negócio que movimenta nos principais clubes brasileiros orçamentos anuais de dezenas e centenas de milhões de reais, portanto entendo que deva ser gerido de forma bastante austera e equilibrada. No entanto o futebol tem um outro fator complicador, que é a paixão e isso causa um desequilíbrio nas decisões dos dirigentes, que são acima de tudo torcedores, por isso é fundamental a presença de um executivo, que está imune ao componente da paixão. Não acho que o executivo deva ter a chave do clube, mas precisa ser ouvido em todas as questões do futebol e juntamente com os diretores elaborar um planejamento estratégico para o clube, com metas de médio e longo prazo. Os clubes que efetivamente se profissionalizarem darão um passo à frente no cenário do futebol nacional, mas como já falei anteriormente esse é um processo doloroso e lento, que vai afetar principalmente a vaidade dos velhos dirigentes, por isso o respaldo político nos clubes é condição fundamental para o trabalho do superintendente.

BLOG- Qual seu maior acerto no Náutico em 2013?

DF- Sem sombra de dúvida, o maior acerto foi ter convencido o Presidente de adquirir um percentual maior dos direitos econômicos do Rogério, na ocasião o Náutico só detinha 10% desses direitos, se não me falha a memória agora aumentou essa participação para 60%. Considero que o Rogério é um atleta talentoso e jovem e ainda vai dar um bom retorno técnico e financeiro para o clube, outra decisão acertada foi renovar o contrato do jovem João Paulo, aumentando seu salário e consequentemente sua multa rescisória, além claro do prazo de contrato.

BLOG- Kiesa deveria ter sido mantido a qualquer custo?

DF- Entendo que naquele momento o clube deveria ter tentado viabilizar de alguma forma a permanência do Kieza, a proposta para o jogador renovar já havia sido aceita por parte do atleta, a questão foram os investidores que queriam de alguma forma recuperar o investimento, mas na ocasião segundo a direção do clube não havia formas de viabilizar o negócio. Alguns meses após, o Náutico tentou repatriar o atleta, aí sim considero uma operação muito mais difícil, considero o Kieza um atacante com faro de gol e grande identificação com o clube.

BLOG- O que acha do trabalho de base do Náutico?

DF- O trabalho das divisões de base é sem dúvida bom, mas há espaço para muitas melhorias, passa também pela valorização dos profissionais que conduzem esse trabalho, que é fundamental para o futuro técnico e financeiro do clube. Consegui dar uma pequena contribuição através de apoio e pleito junto a direção para melhorar as condições de alimentação dos atletas da base.

BLOG- O Náutico tem condições de se estabelecer como um dos grandes clubes do futebol nacional?

DF- Considero que o Náutico tem todas as condições de se estabelecer entre os grandes do futebol brasileiro, pois reúne muitas condições favoráveis para isso, tem um passivo não tão grande se comparado com outros clubes, possui um excelente centro de treinamento, tem uma torcida apaixonada e com alto poder aquisitivo. Primeiro o clube precisa entender qual a sua real posição no cenário atual do futebol nacional, se preocupar menos com o grande rival local pois isso não engrandece em nada o clube nacionalmente e principalmente ter a frente dos seus quadros dirigentes modernos e verdadeiramente comprometidos com o crescimento do clube, que não utilizem o futebol do Náutico para tirar proveito pessoal e principalmente político na região. Outra questão fundamental é a profissionalização do marketing do clube, para que sejam viabilizadas outras fontes de receita e exploradas todas as potencialidades do clube. Volto a afirmar que esse é um processo lento e doloroso, que certamente não será feito apenas de vitórias, mas que bem conduzido pode alçar o clube a uma outra condição, onde sairá mais fortalecido em todos os aspectos.

BLOG- O que acha do Bom Senso F.C.?

DF- Acho que esse movimento Bom Senso FC, passou da hora de acontecer e entendo que deva ser amplificado pela participação dos treinadores e executivos, que são os profissionais que junto com os jogadores sofrem o dia a dia do futebol. Não dá pra continuar convivendo com períodos inadequados de preparação e número excessivo de jogos, principalmente no que se refere aos torneios regionais, que na sua grande maioria são inviáveis economicamente e de duvidoso nível técnico, que servem apenas para atender interesses das federações locais.

BLOG- Quais seus planos para 2014?


DF- Meus planos para 2014 são de estar à frente de um bom projeto, no qual tenha um mínimo de autonomia e respaldo para implantar os conceitos que considero fundamentais na profissionalização do futebol. O caminho para quem trabalha com futebol é bastante árduo, muitas vezes desleal e injusto. Por outro lado poder participar desse processo de profissionalização do futebol é bastante estimulante e desafiador.


Um comentário:

  1. Faltaram umas perguntas: Qual o critério para contratação do goleiro(?) Elinton Andrade? Qual o fator determinante nesta contratação: indicação de amigos ou um bom DVD ou um excelente empresário?

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