Por TÚLIO VELHO BARRETO, MDM
Originalmente publicado na Folha de São Paulo no dia 1º de fevereiro de 2004
Como diria Nelson Rodrigues, "15 minutos antes de tudo" já estava escrito que o futebol brasileiro daria ao mundo três grandes craques e que eles reinariam, cada um em sua época, nos templos sagrados do futebol, aqui e alhures: primeiro foi Friedenreich ou Fried, "el Tigre", que teria marcado mais gols do que Pelé; depois, Leônidas da Silva, "o Diamante Negro", que teria feito um gol descalço na Copa de 1938, na França, quando foi o artilheiro; para só então aparecer o maior de todos, "o rei" Pelé. É a mais absoluta verdade. Por assim dizer, Leônidas da Silva foi o Pelé do futebol nas décadas de 1930 e 40, embora não tenha havido as Copas do Mundo de 1942 e 46, o que impediu seu coroamento. Mas isso não evitou que ele virasse marca de cigarro, que não mais existe, e de chocolate, o perene "Diamante Negro", criado em sua homenagem. Desde então, até a mais desavisada criança já entrou em contato com uma das maiores lendas do futebol em todo o mundo e de todos os tempos. E a admiração despertada por ele foi tanta que ultrapassou em muito os limites das quatro linhas e mesmo dos estádios de futebol, em especial para aqueles que o viram jogar e não apenas ouviram falar dele.
Dionisíaco
Pois bem. Contemporâneo de outros dois gênios do futebol, o "divino" Domingos da Guia e "a maravilha negra" Fausto, com eles formou uma espinha dorsal (Domingos era zagueiro; Fausto, volante; e Leônidas, atacante), campeã e quase imbatível nos anos de 1930, em especial no Vasco de 34 e no Flamengo de 36. Para o sociólogo Gilberto Freyre, Leônidas foi o paradigma do jogador brasileiro, isto é, de estilo e caráter "dionisíaco". Por isso, Leônidas mereceu citação não só em "Sobrados e Mucambos", em que foi chamado de "bailarino da bola", mas em quase todos os seus escritos sobre futebol a partir de "Foot-ball Mulato", publicado ainda em 1938. Pela mesma razão, o crítico teatral e literário Décio de Almeida Prado escreveu um ensaio, "Recordação de Leônidas", para dizer que "a partida que consolidou o prestígio de Leônidas em São Paulo foi espetacular, digna do mito". Foi no Pacaembu, em um "derby" contra o Palmeiras, em 1942, quando este ainda se chamava Palestra Itália. O São Paulo perdeu de 2 a 1, mas Leônidas fez "o milagre esperado pela multidão de fiéis: impusera à partida a sua marca de fábrica. O selo da jogada prodigiosa, jamais vista, nascida da fertilidade do seu cérebro e da elasticidade de suas pernas". Ou seja, inventara a "bicicleta", a mesma jogada que impressionou o escritor Eduardo Galeano, que a chama de "chilena". O uruguaio lembra que "os gols de Leônidas eram tão lindos que até o goleiro vencido se levantava para felicitá-lo". Já no premiado livro "Em Liberdade", o escritor Silviano Santiago descreve o que seria o diário de Graciliano Ramos após deixar os porões do Estado Novo. É uma ficção construída a partir de extensa pesquisa sobre a vida de Graciliano Ramos na casa de seu amigo José Lins do Rego, que o acolhera, no Rio de Janeiro. Zelins, que "era Flamengo doente", tinha "enorme interesse pelo futebol", o que fazia com que, naquela casa, "Leônidas fosse um ídolo maior do que Dostoiévski. É "Diamante Negro" a qualquer momento da conversa", impacientava-se o autor de "Vidas Secas", mais preocupado em escrever suas memórias do cárcere.
Mágica
Mas os craques da crônica esportiva, os irmãos Mario Filho e Nelson Rodrigues, também viram Leônidas jogar e encantar. Para Mario Filho, ele era esse tipo de jogador: "Quando a gente estava arregalando os olhos para ver se via, a mágica estava feita"; para Nelson Rodrigues: "Um jogador rigorosamente brasileiro, da cabeça aos sapatos. Tinha a fantasia, a improvisação, a molecagem, a sensualidade do nosso craque típico".
Leônidas -que naquele tempo era tão assediado quanto os maiores cantores e ídolos da Rádio Nacional- nasceu no dia 6 de setembro de 1913 e, dizem, morreu no último dia 24, o que parece absolutamente despropositado, pois até aquela personagem de Nelson Rodrigues que costuma perguntar "quem é a bola?" sabe que os diamantes são eternos.
Dionisíaco
Pois bem. Contemporâneo de outros dois gênios do futebol, o "divino" Domingos da Guia e "a maravilha negra" Fausto, com eles formou uma espinha dorsal (Domingos era zagueiro; Fausto, volante; e Leônidas, atacante), campeã e quase imbatível nos anos de 1930, em especial no Vasco de 34 e no Flamengo de 36. Para o sociólogo Gilberto Freyre, Leônidas foi o paradigma do jogador brasileiro, isto é, de estilo e caráter "dionisíaco". Por isso, Leônidas mereceu citação não só em "Sobrados e Mucambos", em que foi chamado de "bailarino da bola", mas em quase todos os seus escritos sobre futebol a partir de "Foot-ball Mulato", publicado ainda em 1938. Pela mesma razão, o crítico teatral e literário Décio de Almeida Prado escreveu um ensaio, "Recordação de Leônidas", para dizer que "a partida que consolidou o prestígio de Leônidas em São Paulo foi espetacular, digna do mito". Foi no Pacaembu, em um "derby" contra o Palmeiras, em 1942, quando este ainda se chamava Palestra Itália. O São Paulo perdeu de 2 a 1, mas Leônidas fez "o milagre esperado pela multidão de fiéis: impusera à partida a sua marca de fábrica. O selo da jogada prodigiosa, jamais vista, nascida da fertilidade do seu cérebro e da elasticidade de suas pernas". Ou seja, inventara a "bicicleta", a mesma jogada que impressionou o escritor Eduardo Galeano, que a chama de "chilena". O uruguaio lembra que "os gols de Leônidas eram tão lindos que até o goleiro vencido se levantava para felicitá-lo". Já no premiado livro "Em Liberdade", o escritor Silviano Santiago descreve o que seria o diário de Graciliano Ramos após deixar os porões do Estado Novo. É uma ficção construída a partir de extensa pesquisa sobre a vida de Graciliano Ramos na casa de seu amigo José Lins do Rego, que o acolhera, no Rio de Janeiro. Zelins, que "era Flamengo doente", tinha "enorme interesse pelo futebol", o que fazia com que, naquela casa, "Leônidas fosse um ídolo maior do que Dostoiévski. É "Diamante Negro" a qualquer momento da conversa", impacientava-se o autor de "Vidas Secas", mais preocupado em escrever suas memórias do cárcere.
Mágica
Mas os craques da crônica esportiva, os irmãos Mario Filho e Nelson Rodrigues, também viram Leônidas jogar e encantar. Para Mario Filho, ele era esse tipo de jogador: "Quando a gente estava arregalando os olhos para ver se via, a mágica estava feita"; para Nelson Rodrigues: "Um jogador rigorosamente brasileiro, da cabeça aos sapatos. Tinha a fantasia, a improvisação, a molecagem, a sensualidade do nosso craque típico".
Leônidas -que naquele tempo era tão assediado quanto os maiores cantores e ídolos da Rádio Nacional- nasceu no dia 6 de setembro de 1913 e, dizem, morreu no último dia 24, o que parece absolutamente despropositado, pois até aquela personagem de Nelson Rodrigues que costuma perguntar "quem é a bola?" sabe que os diamantes são eternos.
*Túlio Velho Barreto é cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.

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