Por ROBERTO VIEIRA
A bodega era centenária. Amada e reverenciada por todos. Mas o tempo e a maresia tinham transformado o velho estabelecimento em pardieiro pintado de branco e vermelho. A luz não era paga; água cortada; cheques sem fundo; previsão de fechamento imediato.
Os filhos se reuniram em torno do mais velho e botaram a mão na massa. Empresta de cá, remenda dali, conserta acolá, fiado aqui. A bodega respirou aliviada, ganhou sobrevida, recebeu até computador novo e honrou seus compromissos.
Apesar de empregar bem mais gente do que devia, apesar dos percalços do crescimento inesperado, apesar das idas e vindas dos credores, apesar da inexperiência dos irmãos, a bodega era sucesso. Criou até suco novo, um tal de KUKI, vendido que nem banana entre a criançada.
Mas veio a vaidade, veio a modernidade, vieram os compromissos nacionais, veio a constante necessidade de atualização dos produtos e dos funcionários diante de uma concorrência brutal. A bodega lutava agora contra adversários poderosos demais e continuava na idade da pedra lascada mesmo que algumas instalações já fossem de primeiro mundo. Tinha irmão gastando o dinheiro da bodega como se dinheiro nascesse em escanteio. Tinha irmão deslumbrado com as rádios, como os blogs, com a fama, com o twitter.
A decisão devia ser rápida.
Crescer ou enfrentar o fantasma de fechar novamente?
Bodega ou Rio Mar?
Com a palavra?
Os irmãos...

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários