17 de jul. de 2013




Por EDGAR MATTOS   




Se o Náutico é meu clube de nascença, grata herança de meus pais, o  primeiro time pelo qual torci, de fato, foi o Senrival. Que se escrevia assim mesmo, com “n”, ainda que o sentido da sua denominação fosse proclamá-lo único, imbatível, sem adversário que lhe pudesse fazer frente, ou seja, verdadeiramente “sem rival”...

Para situá-lo, no espaço recifense da minha meninice, é preciso entender que, nessa época, final dos anos quarenta, ali na Torre, ás margens do Capibaribe, naquele trecho entre a Ponte da Capunga e a Ponte da Torre, onde hoje flui a elegante Avenida Beira-Rio, havia um extenso manguezal ocupado por centenas de mocambos. Na parte mais afastada do rio, numa clareira por entre coqueiros, ralamente coberta por um capim rasteiro com pretensões de gramado, improvisava-se o campo do Senrival. Era nele que, aos sábados, barras devidamente apetrechadas com redes, significado do caráter “oficial” da disputa, perante uma ruidosa platéia postada em todo o seu contorno, o time dessa comunidade ribeirinha, devidamente uniformizado com suas camisas rubro-verdes, enfrentava as agremiações visitantes.

Mesmo morando na outra margem do rio, era eu freqüentador habitual desse mangue, onde “batia peladas” e capturava guiamuns, convivendo, portanto, com muitos dos seus habitantes. Por isso, conhecia quase todos os integrantes do Senrival alguns dos quais foram meus primeiros ídolos futebolísticos. O goleiro Geraldo, por exemplo, empregado da casa de Antonio Pereira – que foi prefeito do Recife -, sem ser membro da comunidade, enxertava o time com invulgar destaque, sendo useiro e vezeiro em defender pênaltis. Aliás, formado, predominantemente, por moradores dos mocambos, o Senrival contava com alguns membros da classe média, vizinhos habitantes de algumas casas de alvenaria. Alguns desses eram Eneias e Dodola, irmãos do meu amigo Nune, todos residentes na casa onde hoje funciona a Confraria do Mar, na cabeceira da Ponte da Torre. Alguns dos jogos do Senrival se fizeram memoráveis para mim. Lembro-me especialmente de quando o jovem Fio, promovido do time reserva ao quadro titular, estreou marcando de cabeça o gol da vitória  comemorado, com muito entusiasmo, pela fervorosa torcida da qual era eu  parte muito atuante.

Hoje, de repente, me bateu uma imensa saudade daquelas tardes de sábado em que me emocionava com as vitórias do Senrival. Saudade, sobretudo, de uma época em que podíamos confraternizar, sem medos, com a população dos mocambos ainda não discriminada pelo rótulo, tão tecnocrático, quanto preconceituoso, de “assentamento subnormal”. Apesar da pobreza reinante, havia então a possibilidade de subsistência nos mangues e havia dignidade nos mocambos. E havia, acima de tudo, o Senrival, democratizando a alegria, aproximando e irmanando na mesma felicidade os meninos daquela comunidade ribeirinha e o garoto da outra margem do rio. Tão diferentes; mas tão iguais !

(Acho que devia essa crônica ao SENRIVAL, tentativa de perpetuar a sua memória, ameaçada de desaparecer, juntamente com as derradeiras testemunhas da existência e dos feitos daquela gloriosa agremiação dos mangues da Torre, nos meus tempos de menino)


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3 comentários:

  1. Mais que perfeito! Eu fui torcedor do finado Canto da Vila de Yellow House.Campo na beira da Av.Norte,aos pés do morro.E joguei também no time. Hoje me conformo com o Canto dos Aflitos e o GM com o SONRISAL!

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  2. Muito bom, Edgar. Me fez lembrar das minhas peladas pelo Rosarinho, Ponto de Parada e redondezas onde não existia essa de classe social. Ia de bicicleta sem medo de não voltar com ela. Na verdade nem pela cabeça passava essa hipótese. Tinha uns colegas de pelada que moravam na beira de um córrego onde também ia pegar uns peixes pra meu aquário. Dia desses passando pela av. Norte o trânsito me fez parar exatamente em frente desse veio de água, fiquei olhando e não acreditava que um dia havia peixes por ali.
    Harold

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