No dia 24 de janeiro de 1919, Pernambuco recebe o
Botafogo Foot-Ball Club, entrando definitivamente na história dos grandes
clássicos do futebol brasileiro. O convite realizado pelo Sport Club do Recife
e aceito pelos cariocas, vinha se somar aos amistosos realizados em Recife pelo
Clube do Remo do Pará e pela A.A. Palmeiras de São Paulo.
Os botafoguenses chegaram a bordo do Itaquera, sendo
recebidos por cerca de 3 mil torcedores no cais do Porto do Recife. Em seguida,
um corso de trinta automóveis seguiu pelas ruas 1° de Março, Nova e Imperatriz,
parando na Helvética para merecido lanche. Neste momento, foram saudados pelo
futuro governador de Pernambuco, o usineiro e jornalista, Carlos de Lima
Cavalcanti. O Botafogo se instala no luxuoso casarão Mourisco da família Loyo,
situado na rua do Benfica n° 786. As refeições ficam a cargo do Hotel do
Leite.
O elenco botafoguense era de primeira linha. O
célebre arqueiro Cazuza, originário das categorias de base do alvinegro e
campeão carioca pelo Flamengo em 1912/13/14, era barreira intransponível aos
adversários. A zaga trazia o talento brasileiro de Osny, capitão da equipe e a
garra platina de Alfredo Monti, trazido do time uruguaio do Wanderes. O meio
campo era formado por Francisco Policce, Oswaldo Pessoa, o Vadinho e Paulo
Burlamaqui. Celso Coelho Souza, Periot, Benedito Rodrigues dos Santos, Candiota
e Neco formavam o ataque arrasador.
No primeiro jogo em Pernambuco, o Botafogo passou
por cima do Sport por 6 a 1. A cidade aplaudiu a goleada alvinegra como prova
definitiva da categoria dos visitantes. Não houve surpresa. Mas, eis que de repente,
o Santa Cruz aparece na parada e vira o jogo diante do Botafogo com dois gols
do futuro médico e senador, Martiniano Fernandes. O resultado de 3 a 2 abala os
cariocas – é a primeira vitória de um clube nordestino diante de um clube do
sudeste brasileiro - e transforma o jogo seguinte em questão de vida ou de
morte. E o jogo seguinte é diante do América, campeão do estado.
O América sonha, porém, Zé Tasso está machucado. A
equipe alinha Jorge Tasso; Alesi e Ayres; Rômulo, Bermudes e Soares; Karl, Ziza,
Juju, Peres e Lapinha. A experiencia de Bermudes e Peres é fundamental para uma
pugna desta envergadura, mas Juju é muito jovem para romper a forte dupla de
zaga botafoguense composta por Osny e Monti.
Aos 21' Candiota abre o marcador após receber a bola
em impedimento. O tento abala os pernambucanos e Alesi faz penalti em Candiota.
A cobrança sai fraca, mas José Tasso não consegue deter o rumo da pelota:
Botafogo 2 a 0. A derrota parecia certa quando Police e Candiota saem
machucados. O Botafogo se tranca na defesa e o América investe com fúria. Os
cariocas conseguem segurar o marcador na segunda etapa com a valentia de nove
jogadores e um show de bola de Osny e do uruguaio Monti.
A derrota não impede o América de organizar um baile
em homenagem aos visitantes. O futebol ainda é feito de camaradagem. Na
sequencia, o Botafogo concede revanche ao Sport e vence por 1 a 0 e perde da
seleção da Liga Pernambucana por 4 a 2 – outra vitória comemorada com frevo e
folia no Recife, além dos inúmeros telegramas de felicitações das agremiações
interioranas como o Colombo de Limoeiro.
A história registra que o time da Liga tem em sua
formação, quatro craques do América: Ayres, Alesi, Bermudes e Peres I. Quatro
que poderiam ser cinco, caso Zé Tasso estivesse em condições de jogar seu
imenso futebol.

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