Por ROBERTO VIEIRA
Uma velha revista chilena ‘Estadio’ repousa sobre a mesa. Lançada em janeiro de 1945, em comemoração ao Campeonato Sul Americano do Chile e aos 50 anos do futebol em território chileno. Um presente do amigo Carlos Henrique Meneses. Lá estão todos eles. Os heróis, os vilões, os gols, a torcida, a grandeza do futebol em nosso continente...
Abro a página no ano de 1916…
12 de julho de 1916.
Campo do Gimnasia y Esgrima, em Palermo na Argentina. As esperanças argentinas estavam depositadas no Brasil. O árbitro chileno Carlos Fanta cumprimenta Jose Piendibene e Artur Friedenreich. Dezesseis mil pessoas se acotovelam nas arquibancadas e tribunas.
Ainda não era a Copa América. Ainda não havia o troféu, comprado no anos seguinte por 3 mil francos.
Mas era como se fosse. O torneio comemorativo do centenário da independência argentina era um sucesso.
Multidões.
Grandes jogos.
Muito se fala de Jules Rimet e Robert Guerin da FIFA. Mas como esquecer o dirigente uruguaio Hector Gomez? O homem que propôs a continuação do torneio? O homem por detrás da criação da Copa América?
O Brasil havia empatado com a Argentina por 1 x 1. Resultado inesperado. O Uruguai goleara o Chile por 4 x 0, assumindo a liderança. Uma vitória do Uruguai sobre o Brasil, deixaria os argentinos na obrigação de vencê-los na rodada final. Tarefa que nunca foi fácil.
O Brasil alinha Casemiro; Orlando e Nery; Lagreca, Sidney e Galo; Luiz Menezes, Alencar, Friedenreich, Mimi e Arnaldo. O Uruguai forma com Saporiti; Varella e Foglino; Pacheco, Delgado e Vanzino; Somma, Tognola, Piendibene, Gradin e Romano.
O Brasil não tem tradição no futebol, mas gosta de pregar peças. Dois anos antes, neste mesmo estádio, venceu a Argentina.
Com um tirambaço de Rubens Salles.
O árbitro Carlos Fanta apita. E aos 8′ da primeira etapa, os uruguaios conhecem Friedenreich. O futuro Tigre dribla toda a defensiva celeste e toca no canto: Brasil 1 x 0. Marca o primeiro gol dos históricos confrontos entre Brasil e Uruguai.
Delírio no estádio. Os argentinos gritam o nome do Brasil. E o Brasil aperta. Saporiti faz milagres. Até que o centroavante Piendibene choca-se contra Orlando Pereira aos 20′ de jogo. Orlando que seria tetracampeão paulista pelo Paulistano, além de chefe da delegação do mesmo Paulistano na célebre excursão à Europa em 1925.
O brasileiro sai machucado. Não existe substituição. O Brasil agora joga com dez. A partida muda de figura. O Uruguai aproveita a vantagem. Agora é Casemiro, arqueiro do Mackenzie, que defende até pensamento.
Termina o primeiro tempo, começa a etapa complementar. Eis que surge a grande arma vestida de azul. O negro Isabelino Gradin.
Único negro entre os 22 jogadores em campo. Não fosse azul e negro o uniforme cisplatino. Para espanto dos brancos brasileiros, Gradin mete a mão na bola maliciosamente e empata o jogo: 1 x 1. Gol que lhe daria a artilharia do campeonato.
O estádio se cala.
A não ser por algumas dezenas de uruguaios gritando como loucos na torcida.
Pouco depois, aos 30′, Tognola desempata: Uruguai 2 x 1.
O Brasil é aplaudido pelos argentinos e cumprimentado pelos uruguaios. Uruguaios que seriam os campeões do torneio, ao empatar com a Argentina na terceira rodada, em partida disputada no estádio do Racing Club em Avellaneda.
O campo do Gymnasia seria incendiado pela própria torcida antes do jogo final.
No primeiro sinal do que seria a Copa América.
Velhos tempos.
Seis dias depois o Brasil cruza o Prata e enfrenta uma seleção uruguaia de novos, onde surgia Carlos Scarone, irmão mais velho do mitológico Héctor Scarone. O jogo realizado no Parque Central em Montevidéu termina com a vitória do Brasil por 1 x 0. Gol do botafoguense Mimi Sodré. O Brasil voltava para casa com a certeza do dever cumprido. Mas levaria alguns anos para encarar a realidade.
O futebol não tinha cor.
O futebol era de todos.
Principalmente do mulato Friedenreich.
E do negro genial e milongueiro Isabelino Gradin…

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