Nassau chegou a Pernambuco aos 33 anos. Ficou perdidamente apaixonado
pela terra estrangeira, tão diferente da sua Alemanha natal. Era janeiro, tempo
de sol inclemente. Nassau sonhou com uma Holanda tropical...
Pernambuco ergueu sua Arena. Um monumento entre as matas de
São Lourenço destacando-se no cenário inclemente como símbolo do que Pernambuco
foi um dia sob o domínio de Nassau. Coliseu de formas modernas, o novo estádio
contempla os contrastes entre a riqueza do seu padrão europeu entremeado com o
casario pobre das suas redondezas. Pernambuco dos sobrados e mocambos
freyreanos, revivido na imaginação do torcedor de futebol.
Será possível uma civilização nos trópicos? Será possível
uma Nova Holanda? Será provável que Olinda tenha o olhar admirado do mundo ante
seu fascínio?
As perguntas são muitas. Suape é realidade de um estado que
possuía estaleiros há duzentos anos e os teve surrupiados pelo poder central. O
crescimento vertiginoso acompanha os números febris de cana de açúcar e algodão
no passado, ofuscados pela chegada do tempo e das indústrias no sul do país. A
montadora italiana na mata norte desconcerta o atraso secular de uma pujante
Goiana esquecida na memória. Os caminhões paus de arara quedaram mortos.Pernambuco
assiste a migração retrógrada após assistir seus filhos partindo para a mãe
gentil.
Somos pobres. Ainda. Somos próximos da miséria nas favelas
do Joana Bezerra. Somos analfabetos e assistimos a sujeira poluindo nossos
rios, sonhos de Veneza. Somos atrasados em nosso próprio chão. Escravos de
nossas escolhas libertárias em 1817 e 1824, apunhalados e executados no campo
das princesas. Somos os farrapos do que imaginava Nassau ao fazer um boi
voador.
De joelhos contemplamos a imensidão da Arena. Pode um
Coliseu reviver a Roma de bravos guerreiros? Pode o orgulho dentro de nosso
coração resgatar a casa de Duarte Coelho? Podemos restaurar novamente o que
passou a se chamar saudade? Podemos acreditar no ritmo frenético que constrói
nas ruínas do que era mangue?
Pode uma bola de futebol mudar nossa história?
Não sei. Ninguém sabe. A história é construída a cada dia.
Compatriotas de Frei Caneca e Abreu e Lima. Discípulos de Ascenso e Nélson Ferreira.
Nossa é a casa da Rua União de Manoel Bandeira.
Quem sabe se nossos olhos puderem olhar nossa terra com os
mesmos olhos do alemão Maurício de Nassau? Quem sabe se pudermos subtrair da
realidade a vontade inquebrantável que nos faz pernambucanos? Quem sabe se cada
um de nós fizer a sua parte?
Quem sabe um dia, sob o sol inclemente de janeiros, não
possam nossos filhos descobrir que Pernambuco é imortal além da voz embargada
de nosso hino? E quem sabe tudo não terá começado novamente na visão daquela
Arena surrealista no meio da mata sem fim das terras de Pau Brasil em São
Lourenço?
Quem sabe...

Texto antológico GM Roberto. Deveria ser matéria escolar, universitária e priu e pois...
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