26 de mai. de 2013






Por ROBERTO VIEIRA          



Nassau chegou a Pernambuco aos 33 anos. Ficou perdidamente apaixonado pela terra estrangeira, tão diferente da sua Alemanha natal. Era janeiro, tempo de sol inclemente. Nassau sonhou com uma Holanda tropical...

Pernambuco ergueu sua Arena. Um monumento entre as matas de São Lourenço destacando-se no cenário inclemente como símbolo do que Pernambuco foi um dia sob o domínio de Nassau. Coliseu de formas modernas, o novo estádio contempla os contrastes entre a riqueza do seu padrão europeu entremeado com o casario pobre das suas redondezas. Pernambuco dos sobrados e mocambos freyreanos, revivido na imaginação do torcedor de futebol.

Será possível uma civilização nos trópicos? Será possível uma Nova Holanda? Será provável que Olinda tenha o olhar admirado do mundo ante seu fascínio?

As perguntas são muitas. Suape é realidade de um estado que possuía estaleiros há duzentos anos e os teve surrupiados pelo poder central. O crescimento vertiginoso acompanha os números febris de cana de açúcar e algodão no passado, ofuscados pela chegada do tempo e das indústrias no sul do país. A montadora italiana na mata norte desconcerta o atraso secular de uma pujante Goiana esquecida na memória. Os caminhões paus de arara quedaram mortos.Pernambuco assiste a migração retrógrada após assistir seus filhos partindo para a mãe gentil.

Somos pobres. Ainda. Somos próximos da miséria nas favelas do Joana Bezerra. Somos analfabetos e assistimos a sujeira poluindo nossos rios, sonhos de Veneza. Somos atrasados em nosso próprio chão. Escravos de nossas escolhas libertárias em 1817 e 1824, apunhalados e executados no campo das princesas. Somos os farrapos do que imaginava Nassau ao fazer um boi voador.

De joelhos contemplamos a imensidão da Arena. Pode um Coliseu reviver a Roma de bravos guerreiros? Pode o orgulho dentro de nosso coração resgatar a casa de Duarte Coelho? Podemos restaurar novamente o que passou a se chamar saudade? Podemos acreditar no ritmo frenético que constrói nas ruínas do que era mangue?

Pode uma bola de futebol mudar nossa história?

Não sei. Ninguém sabe. A história é construída a cada dia. Compatriotas de Frei Caneca e Abreu e Lima. Discípulos de Ascenso e Nélson Ferreira. Nossa é a casa da Rua União de Manoel Bandeira.

Quem sabe se nossos olhos puderem olhar nossa terra com os mesmos olhos do alemão Maurício de Nassau? Quem sabe se pudermos subtrair da realidade a vontade inquebrantável que nos faz pernambucanos? Quem sabe se cada um de nós fizer a sua parte?

Quem sabe um dia, sob o sol inclemente de janeiros, não possam nossos filhos descobrir que Pernambuco é imortal além da voz embargada de nosso hino? E quem sabe tudo não terá começado novamente na visão daquela Arena surrealista no meio da mata sem fim das terras de Pau Brasil em São Lourenço?

Quem sabe...


Um comentário:

  1. Texto antológico GM Roberto. Deveria ser matéria escolar, universitária e priu e pois...

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