Por ROBERTO VIEIRA
Recife, 10 de agosto de 1964
Miguel deixa a sua cela.
Vinte e três minutos.
Metade de um tempo de um jogo de futebol.
Dá pra virar o jogo?
Difícil.
O juiz está no bolso.
Mas quem sabe rever a bola?
Quem sabe um drible no destino?
Ana Lúcia está tão bela.
Mas essa de casar na capela da Base Aérea!
Um minuto já passou.
Dia dos Pais.
Agora Miguel lembrou que era Dia dos Pais.
Revistaram a Mariana.
Mariana com seus onze anos não entendeu nada.
Ou será que Mariana entendeu?
Ana casa com Maximiano.
Sejam felizes.
Um beijo pra cada filho.
Um beijo na esposa.
Dois minutos pra cada um.
A filha diz sim.
O noivo também.
O Murici disse sim.
Mas apenas por vinte e três minutos.
Apenas revistando todo mundo.
Até a Mariana.
Um oficial do exército assiste a cerimônia constrangido.
Uma lágrima molha o uniforme.
Miguel observa que os soldados portam metralhadoras.
Exigência do Olímpio.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um...
Adeus.
A família de Miguel se despede.
Mariana quer chorar.
O pai não permite.
"Deixe eu me lembrar de você sorrindo!"
A família do ex-governador vai embora.
Os soldados conduzem Miguel de volta à ilha-prisão no Rio.
O jogo termina com a vitória do futebol-força.
Vinte e três minutos não mudaram a partida.
Nem o mundo.
Miguel imagina:
Nem toda ilha é prisão.
Nem todo homem é ilha.
A prisão é apenas a ilha dos homens que não sabem sonhar.
Miguel fecha os olhos.
Sonhando.
Com Ana.
Com o sorriso de Mariana.
Com o barulho das ondas do mar...
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