14 de mar. de 2013





Por ROBERTO VIEIRA


A imagem é antiga, desbotada. Fazia frio e os pombos brincavam em minha volta. Sorriso impreciso, eu realizava o sonho de chegar mais perto de João XXIII. O palácio atrás de mim na foto era a residencia oficial de Angelo Roncalli quando Patriarca de Veneza.

Aos dezesseis anos, uma pequena biografia do Papa chegara até minhas mãos. Vivia então a angústia de me perguntar sobre a existência de Deus e a miséria dos homens. As respostas jesuítas no colégio desapareciam a olhos vistos. O pensamento repousava no vestibular de medicina. A alma dos alunos já não era tão importante em um universo em transformação. O Brasil era um continente católico. Os alunos eram soldados de Cristo. F = ma. O sobrenome e a fortuna pessoal eram mais importantes que o olhar de um homem naqueles dias.

Saí do Colégio Nóbrega em 1981. Diante de mim, um mundo de greves estudantis, ditadura, anistia irrestrita, arenas, pmdbs, pds, meninos de rua e falência do sonho de ser brasileiro. Um ano antes, eu delirava na visita de João Paulo II a Recife. Logo no meu aniversário, o Papa e Dom Hélder. Teologia da Libertação. Morris West.

A Igreja esteve distante do seu povo. Durante onze anos de colégio, um completo silêncio sobre a situação política do país imperava na mente de cada aluno. Pronunciar o nome 'Arraes' era impossível, pois no ensino das escolas, Pernambuco começava em Paulo Guerra. Éramos um bando de alienados vestidos de branco e cinza. Marchando nos dias sete de setembro.

Onde estaria Deus? Aulas de moral e cívica. Nosso professor era um antigo padre que se apaixonara e casara com uma antiga freira. Pisquei os olhos; havia sonho e sentimento na vida eclesiástica.

Quando a minha dúvida era parte do meu dia a dia, surgiu a biografia de João XXIII. Concílio Vaticano. A criança pobre emergindo do nada, exilado na Bulgária, desprezado por confiar nos homens, salvando judeus, contando causos e piadas.

João XXIII era a resposta.

Amar a Deus não precisava ser feito com ar sério e carrancudo. Deus era sorriso.

E pra quem imagina que confusão é casamento entre pessoas do mesmo sexo e o uso de camisinhas, saibam que João XXIII enfrentou a Crise dos Mísseis, a chegada de Fidel Castro ao poder e um câncer inoperável, escrevendo oito encíclicas sobre a Paz na Terra.

Angelo preservou Deus no meu coração - embora durante algum tempo, Marx parecesse uma resposta para todos os males. Deus permaneceu assim como semente sob a neve do inverno rigoroso e inclemente. Sempre que me afirmava como ateu, a imagem de Angelo me voltava, nobre e caridosa.

Um dia, recusei a dialética da foice e martelo. Nove longos anos de desencontro comigo mesmo se passaram. Mas não me subverti a fé das ricas igrejas barrocas. A pequena igreja que trazia em mim, era aquela igreja do João Paulo sorrindo, a igreja de Woytila nos campos de trabalho forçado da Polônia, a igreja de Sotto il Monte.

Aos 32 anos, visitei brevemente a Itália. Deixara a literatura de lado, imaginava que a via estava definitiva, completa. No Vaticano, tive a oportunidade de assistir uma missa ao ar livre de João Paulo II na Praça de São Pedro. Confesso que não me disse tanta coisa quanto anos antes, na Recife do Joana Bezerra.

O museu do Vaticano, a Sistina e a Basílica eram ricas, cobertas de preciosidades e púrpura. Não encontrei a Deus naqueles pórticos, exceto ao me deparar com a escultura da Pietá. A Pietá me salvou naquele dia.

Pouco depois, viajei até Assis. Com medo de me decepcionar com outro dos meus símbolos mais queridos: Francisco.

No túmulo de Francisco de Assis, simples e profundo na essência, pobre e singelo, eu rezei num banquinho pelo menino que habitava meu passado. Saí reconfortado.

Deus estava ali todo o tempo.

Deus existia.

Lá fora, se estendia a terra árida e pedregosa. A cidade antiga e humana.

Conversei com dois franciscanos , um deles australiano e eles me explicaram que Francisco tinha esse dom. O dom de nos levar para mais perto de Deus.

A caminhada entre os meus entes queridos se encerrou nesta foto entre pombos.

Frio.

Agradeci em meu coração ao querido Angelo.

Em algum lugar deste mundo, ele deve ter sorrido seu sorriso de passarinho.

Ele sabia. E Francisco também.

Aquele era apenas um discreto remanso, uma estalagem na imensidão da procura sem fim.

Desta longa estrada chamada vida...

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