Por ROBERTO VIEIRA
A velhinha enganou todo mundo. Os cabelos revoltos e brancos
lutam contra o vento na Florida. Summertime. Quem vê a gentil senhora fumando
seu cigarro na calma avenida a beira mar não reconhece o furacão dos anos 60.
Janis havia cansado dos shows, dos amantes, das noites
acordando nas espeluncas entre agulhas e haxixe. Dinheiro não era problema. Um
pouco de erva era fácil de achar. Janis morreu de mentira naquele 1970, quando
a música estava acabando de morrer de verdade.
E ela saiu perambulando pelo mundo. Esteve no Brasil, mas a
barra estava pesada demais pra quem tinha cabelos longos e o sorriso irônico. Bateu
perna pela velha Europa a tempo de enterrar o amigo Jim, morto numa banheira,
gordo e decadente. Paris só podia servir de túmulo para os poetas. Era a mesma
velharia dos anos 30.
Londres tinha os Stones. Janis ria quando via Jagger
rebolando no palco pra descolar algum trocado. Lá ela se encontrou com um
brasileiro barbudo e doidão chamado Raul. Era incrível, mas o carinha era mais
doido que ela nos velhos tempos.
Suécia. ABBA. Mulheres louras nuas nas praias. Outras
rezando nas igrejas centenárias. Janis se apaixonou por Frank, negro cubano que
tocava jazz na noite de Estocolmo. Passaram juntos dois anos, mas Janis nunca
lhe contou sobre seu passado e Frank nunca quis saber. Tudo que ele queria ela
lhe dava na madrugada quando a noite durava dias e dias e dias.
Dancin’ queen. Era melhor assim. Frank se despediu. Janis
pegou as malas e voltou para os EUA de Nixon e Ford. Comprou a velha casa cor
de rosa na Florida. Plantou orquídeas e margaridas. De vez em quando botava um
disco pra tocar.
E assim ela viveu até hoje.
Cercada, literalmente, de gatos e flores.
Achando graça nos fãs que choram todos os anos sua morte.

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