28 de dez. de 2012




Por ROBERTO VIEIRA



o milésimo gol está prestes a se tornar banalidade, mas antigamente era coisa muito séria, seríssima!



Ele marcou o milésimo gol na escola.

Em segredo.

Na pelada do recreio.

Não teve foto, nem festa, nem sorvete de chocolate.

Apenas a sensação do dever cumprido.

Futebol é bola na rede, segundo seu pai.

Embora a barra da escola não tenha rede.

Nem barra.

É apenas um espaço entre dois paralelepípedos no infinito infantil.

Coisa estranha.

Na noite do milésimo gol não dormiu direito.

Sonhou com a palmatória na escola.

Sonhou com o padre e diretor falando do inferno.

Acordou assustado.

Não dormiu mais.

As aulas de matemática e geografia pareceram intermináveis.

Ficava pensando no caderninho na bolsa.

999, 999, 999, 999.

A tampinha de refrigerante caiu no seu kichute direito.

O chute saiu certeiro.

Gol.

Queria correr para os braços do pai.

Sentir o beijo da mãe.

Calou-se.

Escreveu no caderno.

1000, 1000, 1000, 1000.

Segredo particular, particularíssimo.

Ele e Deus na sacristia.

Caminhando pra casa na Conde da Boa Vista, soluçou.

Mas um homem não deve chorar, segundo seu pai.

Nem no dia do seu milésimo gol.





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