17 de dez. de 2012









Por ROBERTO VIEIRA


Lá.

A bola se calou nas peladas de criança.

Campos castigados de terra escaldante.

Já não abrigam pés e pontas de lança.

Apenas sol, e sol e sol incessante.

Percorri centenas de quilômetros este mês.

Verdes mandacarus no horizonte.

Miragens.

Carcaças de boi enfileiradas nas trincheiras.

Mulheres magras de olhar parado silhuetas.

Crianças miseráveis do país Nordeste.

Uma destas crianças vestia a camisa da seleção.

Farrapo de gente que inconsciente gosta só do sofrer.

Vive para penar.

Felipão.

Uma placa amarela na multidão de cinza.

Apontava os urubus do agreste e sertão pós caatinga.

A Arena da Copa jazia longe.

Uma bandeira do PT, uma bandeira do PSB,

uma bandeira do PSDB e do PMDB.

Uma camiseta do DEM.

Fome não havia.

Havia milhares de sertanejos com Bolsas e famílias.

Nada daquelas invasões da década de 60.

Limoeiro invadida três vezes.

Coronéis de arma em punho mandando matar.

Lá.

Coronéis já não há.

Resistem aqui e ali macambúzias casas antigas.

Teto caído.

Retratos de véu e grinalda.

Land Rovers são as novas carruagens do Poder.

Passam voando com políticos pela estrada.

Vão vender sonhos em caminhões pipa.

A televisão anuncia que vestiram o Rei.

Mas despiram as meninas de dez anos prostituídas nas estradas.

Dez centavos o beijo.

Vinte, a permissão.

O deserto de Lamarca e Lampião queima.

Em Mogeiro.

O atacante imagina-se no futebol alemão.

Tor.

Gonzagão completa cem anos com as promessas de asa branca e assum preto.

Gravadas no seu olho cego.

Fartura de porção.

Riqueza pros descamisados.

Ordem e progresso.

A mentira – não é segredo pra ninguém

  • repetida mil vezes veste documento impresso.


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