Por ROBERTO VIEIRA
Lá.
A bola se calou nas
peladas de criança.
Campos castigados de
terra escaldante.
Já não abrigam pés e
pontas de lança.
Apenas sol, e sol e sol
incessante.
Percorri centenas de
quilômetros este mês.
Verdes mandacarus no
horizonte.
Miragens.
Carcaças de boi
enfileiradas nas trincheiras.
Mulheres magras de
olhar parado silhuetas.
Crianças miseráveis
do país Nordeste.
Uma destas crianças
vestia a camisa da seleção.
Farrapo de gente que
inconsciente gosta só do sofrer.
Vive para penar.
Felipão.
Uma placa amarela na
multidão de cinza.
Apontava os urubus do
agreste e sertão pós caatinga.
A Arena da Copa jazia
longe.
Uma bandeira do PT, uma
bandeira do PSB,
uma bandeira do PSDB e
do PMDB.
Uma camiseta do DEM.
Fome não havia.
Havia milhares de
sertanejos com Bolsas e famílias.
Nada daquelas invasões
da década de 60.
Limoeiro invadida três
vezes.
Coronéis de arma em
punho mandando matar.
Lá.
Coronéis já não há.
Resistem aqui e ali
macambúzias casas antigas.
Teto caído.
Retratos de véu e
grinalda.
Land Rovers são as
novas carruagens do Poder.
Passam voando com
políticos pela estrada.
Vão vender sonhos em
caminhões pipa.
A televisão anuncia
que vestiram o Rei.
Mas despiram as meninas
de dez anos prostituídas nas estradas.
Dez centavos o beijo.
Vinte, a permissão.
O deserto de Lamarca e
Lampião queima.
Em Mogeiro.
O atacante imagina-se
no futebol alemão.
Tor.
Gonzagão completa cem
anos com as promessas de asa branca e assum preto.
Gravadas no seu olho
cego.
Fartura de porção.
Riqueza pros
descamisados.
Ordem e progresso.
A mentira – não é
segredo pra ninguém
- repetida mil vezes veste documento impresso.

Muito bom seu blog parabéns
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