3 de nov. de 2012






Por ROBERTO VIEIRA       


O planeta amanheceu como das outras vezes. Milhões de vezes. Era um dia como outro qualquer. O homem criado da terra vermelha, porém, estava só. Teve vontade de dar uma tragada no último cigarro, mas cigarros haviam sido abolidos desde o século passado. Teve vontade de pedir um último beijo, mas beijos eram expressão de sexualidade abolida nos tempos do seu pai. Teve vontade de chamar um palavrão, mas palavrões perderam o sentido com o virtual desaparecimento da linguagem como forma de expressão.

Tudo agora era nuvem virtual.

Espermatozoides femininos eram produzidos em laboratório. Perfeitos, selecionados, específicos, herdeiros de Newcastle. O fato dera o pontapé inicial para a libertação final do antigo sexo frágil perante o homem.

O último homem chutou uma bola de futebol imaginária.

Em um planeta pleno de alimento, o sexo masculino humano era uma interferência no cotidiano das pessoas. Homem só queria guerra, homem não lavava as roupas, homem não limpava a casa, homem era responsável pela terrível mistura de cerveja com pizza nas noites de sábado e domingo. Homem estava com seus dias contados.

Os que se salvaram inicialmente foram os filhos. Crianças de tenra idade que eram admitidos como capazes de serem doutrinados pela Nova Ordem. Fotos de Cristiano Ronaldo, discos de Ricky Martin, dorsos depilados, cabelos engomados, roupas fashion, mentes domesticadas em admitir a pluralidade de pensamento e ação sob o comando das mães e amigas. Rapazes que eram tão meigos e gentis que poderiam passar por uma menina. Aliás, eram tão parecidos com as meninas que foram substituídos por meninas nas relações do século XXI.

Só que o último homem resistiu. Membro de uma tribo que misturava fãs de westerns, músicos de punk e chorinho, militares, guerrilheiros, fãs da velha guarda, adeptos do Waldick Soriano e Frank Sinatra, torcedores das gerais e mais uma centena de pequenos guetos, ele combateu com paixão para seguir os passos que seu DNA mandava.

Foi um bravo. Começando seu duelo contra o perfume francês que sua genitora insistia em sapecar no seu cabelo na época do maternal.

A mãe nunca o compreendeu.

O pai no entanto, batia palmas e o levava pra tomar cachorro quente nos estádios de futebol, jogar bola de gude na praça da esquina, beber caldo de cana na beira da praia e melhor de tudo; observar as mulheres de biquíni saindo do mar.

Sim. Pois esta era a contradição do último homem e de seus companheiros de batalha.

Eles amavam as mulheres acima de todas as coisas. Não podiam compreendê-las, é verdade, mas a vida não tinha significado sem um cangote cheiroso saído do banho, sem um cabelo molhado chicoteando o peito, sem um beijo de batom vermelho na camisa, sem um rala coxa nos forrós de pé de serra.

O último homem observou o planeta e teve saudade das covinhas do rosto dela. Lembrou com olhos rasos d´água – com cuidado pra não chorar – as curvas do corpo moreno que lhe mostrara todos os prazeres da carne.

Devia partir.

Ficaria o planeta com as mulheres, os homens que se submetiam ao São Paulo Fashion Week e os seres humanos pertencentes às 200 subdivisões da libido estabelecidas na última Convenção de Genebra. Mesma convenção que banira Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e Pablo Neruda como porcos chauvinistas.

Ela podia ficar com a costela.

Ele partia sem identidade e com a leve impressão de que já ia tarde...  


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