Por ROBERTO VIEIRA
O planeta amanheceu
como das outras vezes. Milhões de vezes. Era um dia como outro
qualquer. O homem criado da terra vermelha, porém, estava só. Teve
vontade de dar uma tragada no último cigarro, mas cigarros haviam
sido abolidos desde o século passado. Teve vontade de pedir um
último beijo, mas beijos eram expressão de sexualidade abolida nos
tempos do seu pai. Teve vontade de chamar um palavrão, mas palavrões
perderam o sentido com o virtual desaparecimento da linguagem como
forma de expressão.
Tudo agora era nuvem
virtual.
Espermatozoides
femininos eram produzidos em laboratório. Perfeitos, selecionados,
específicos, herdeiros de Newcastle. O fato dera o pontapé inicial
para a libertação final do antigo sexo frágil perante o homem.
O último homem chutou
uma bola de futebol imaginária.
Em um planeta pleno de
alimento, o sexo masculino humano era uma interferência no cotidiano
das pessoas. Homem só queria guerra, homem não lavava as roupas,
homem não limpava a casa, homem era responsável pela terrível
mistura de cerveja com pizza nas noites de sábado e domingo. Homem
estava com seus dias contados.
Os que se salvaram
inicialmente foram os filhos. Crianças de tenra idade que eram
admitidos como capazes de serem doutrinados pela Nova Ordem. Fotos de
Cristiano Ronaldo, discos de Ricky Martin, dorsos depilados, cabelos
engomados, roupas fashion, mentes domesticadas em admitir a
pluralidade de pensamento e ação sob o comando das mães e amigas.
Rapazes que eram tão meigos e gentis que poderiam passar por uma
menina. Aliás, eram tão parecidos com as meninas que foram
substituídos por meninas nas relações do século XXI.
Só que o último homem
resistiu. Membro de uma tribo que misturava fãs de westerns, músicos
de punk e chorinho, militares, guerrilheiros, fãs da velha guarda,
adeptos do Waldick Soriano e Frank Sinatra, torcedores das gerais e
mais uma centena de pequenos guetos, ele combateu com paixão para
seguir os passos que seu DNA mandava.
Foi um bravo. Começando
seu duelo contra o perfume francês que sua genitora insistia em
sapecar no seu cabelo na época do maternal.
A mãe nunca o
compreendeu.
O pai no entanto, batia
palmas e o levava pra tomar cachorro quente nos estádios de futebol,
jogar bola de gude na praça da esquina, beber caldo de cana na beira
da praia e melhor de tudo; observar as mulheres de biquíni saindo do
mar.
Sim. Pois esta era a
contradição do último homem e de seus companheiros de batalha.
Eles amavam as mulheres
acima de todas as coisas. Não podiam compreendê-las, é verdade,
mas a vida não tinha significado sem um cangote cheiroso saído do
banho, sem um cabelo molhado chicoteando o peito, sem um beijo de
batom vermelho na camisa, sem um rala coxa nos forrós de pé de
serra.
O último homem
observou o planeta e teve saudade das covinhas do rosto dela. Lembrou
com olhos rasos d´água – com cuidado pra não chorar – as
curvas do corpo moreno que lhe mostrara todos os prazeres da carne.
Devia partir.
Ficaria o planeta com
as mulheres, os homens que se submetiam ao São Paulo Fashion Week e
os seres humanos pertencentes às 200 subdivisões da libido
estabelecidas na última Convenção de Genebra. Mesma convenção
que banira Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e Pablo
Neruda como porcos chauvinistas.
Ela podia ficar com a
costela.
Ele partia sem
identidade e com a leve impressão de que já ia tarde...

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários