O
ano de 1920 começou com muito futebol. No dia 2 de janeiro, jornais
anunciavam a disputa de duas exóticas taças no primeiro domingo do
ano. Em pleno Estádio da Avenida Malaquias se daria o sensacional
match entre os dois bicampeões do estado: América e Sport. O que
pegava, porém, era o nome das taças em disputa: Desengano e
Desilusão. Felizmente, o Sport desistiu da disputa de última hora e
o América jogou contra o Santa Cruz um simples amistoso – sem
direito a taça nem baixo astral.
Como
nem só de estadual vive o homem, a novidade era a viagem do América
para Belém do Pará a convite do Clube do Remo. No ano anterior, os
rubro-negros haviam feito excursão vitoriosa contra os paraenses,
retornando com o antológico troféu do Leão do Norte. Agora era
chegada a vez do América.
O
arqueiro Ilo Just do Santa Cruz liderava a disputa no Jornal Pequeno
sobre qual era o melhor goal-keeper da cidade. Em seguida,
apareciam Franco do Sport, o alvirrubro Euclides e Salgado do
América. Ilo Just viria a ser campeão pelo América em 1927, mas
não vamos nos adiantar aos fatos.
No
dia 3 de janeiro, sábado, assume a LPTD (Liga Pernambucana dos
Desportos terrestres), o Dr. João Reynaldo da Costa Lima,
desportista e alvirrubro dos quatro costados. A vice-presidência
ficava por conta de João Duarte Dias, dirigente do C.S. Peres; o
América se fazendo representar com o segundo secretario, Manoel
Ansberto Lopes.
O
ambiente de calma era cortina de fumaça. O bicampeonato do América
insuflara os ânimos de Barbosa Lima Sobrinho, dirigente e antigo
remador alvirrubro, adepto do amadorismo radical. Desporto para o
futuro governador de Pernambuco era lugar onde dinheiro não devia
entrar. As ideias de Sobrinho ganharam adeptos nos círculos
desportivos locais, embora muita dessa adesão tenha sido por motivos
bem diversos: o medo do tricampeonato do América. Como o clube do
coronel Seixas estava de partida para a excursão ao Norte, parte do
antagonismo ficou latente, aguardando a provável derrota do clube
esmeraldino. Afinal de contas, o América viajava sem três
titulares, entre eles o formidável Zé Tasso.
No
dia 21 de janeiro de 1920, a delegação do América deixa em
comitiva a sede do clube na Rua da Conceição rumo ao cais da Rio
Branco. A bordo do paquete Ceará, a delegação do bicampeão
estadual viaja com a bandeira verde e branco na proa. Após breve
passagem por Fortaleza, a delegação é recebida no Maranhão pelo
governador Urbano Santos. Um amistoso é disputado contra o Luso
Sport Club com vitória pernambucana por 4 a 2. Logo após a
pugna, banquete para oitenta talheres é oferecido pelo Luso aos seus
adversários.
No
dia 29 de janeiro, o América é recebido com festa em Belém.
Pequeno descanso, no dia 1° de fevereiro, a primeira batalha, duelo
no gramado encharcado contra o selecionado paraense formado pelos
craques do Remo, Payssandu, Brasil e Manaus. O América escalou
Nhozinho; Alexi e Ayres; Rômulo, Bermudes e Siza; Lapa, Perez, Juju,
Salermo e Felipe. Já os paraenses alinharam Francelisio; Lulu e
Mamede; Guimarães, Bordallo e Suisso; Ludgard, Viroxa, Leôncio,
Mimi e Arthur.
A
arbitragem do Sr. Gastão Bittencourt anula um gol logo de cara do
América. Juju numa arrancada espetacular mandou a pelota para as
redes de França e já comemorava quando percebeu que o juiz vira
irregularidade no lance. Os paraenses então pressionam, descobrindo
a genialidade de Nhozinho, substituto do formidável Salgado.
Nhozinho defendeu tudo, menos um chute de Leôncio. A vantagem dos
donos da casa foi passageira. Esqueceram de avisar ao selecionado
paraense que o América tinha canhão na cancha. Bermudes acertou
tirombaço do meio campo deixando atordoado todo o Grão-Pará.
O
resultado de 1 a 1 foi recebido com festa, tanto na sede do América
como no Bar Brasileiro, reduto da torcida paraense em Recife, local
onde foi entoado por toda a noite o hino do futuro adversário
esmeraldino – sinal das batalhas por vir.
No
meio da festa, chega a Belém notícia do falecimento do pai do
zagueiro Ayres Valente. O coronel Seixas envia telegrama informando a
comitiva. Ayres chora inconsolável e retorna ao Recife deixando a
embaixada pernambucana de luto.
O
jogo seguinte do América é diante do Combinado Remo-Brasil, no
campo do Remo, no dia 5 de fevereiro. Salermo acamado é substituído
por Gastão. Recife aguarda ansiosamente a notícia do resultado.
Nove horas da noite e um telegrama é afixado na sede do América;
“Vencemos
jogo Brasil-Remo 1 a 0. Embate renhidíssimo!”
Um
rico troféu, oferecido pelo City Bank com sede na capital paraense,
é conquistado pelo América. Recife embarca numa festa inesquecível.
Com exceção de alguns cartolas adversários achavando que a festa
americana estava indo longe demais.
Mas
havia o poderoso Clube do Remo, equipe tradicional, campeã do
Torneio do Centenário da Revolução de 1817 disputado em
Pernambuco. Lulu e Bordallo eram remanescentes daquele time que
deslumbrou Recife ao vencer a seleção pernambucana por 4 a 2 e 3 a
2. O América lembrava bem do Remo. América que fora derrotado por 2
a 0 em 1917.
Falar
que o match do dia 8 de fevereiro foi uma guerra é pouco. O
Remo buscava retomar o título de campeão do Norte que vira escapar
entre os dedos no ano anterior, dentro de casa, diante do Sport. O
América parecia vítima certa – desfalcado de quatro titulares e
sem reforço de nenhum outro time pernambucano. Outro aperitivo
especial era a invencibilidade do América. Ao contrário do Sport
que fora derrotado duas vezes em 1919, o América se recusava a
perder.
Ânimos
a flor da pele, estádio lotado, a arbitragem foi oferecida ao Sr.
Eurico Viveiros de Castro, ex-vice presidente do Remo,
capitão-tenente da canhoneira Aere,
filho de Viveiros de Castro, juiz do Supremo Tribunal Federal e genro
de Lauro Sodré, governador do Pará. O América assinalou três
gols. O árbitro Viveiros de Castro anulou todos eles. Não
satisfeito, marcou um pênalti para o Remo.. e o América se retirou
de campo sob pedradas.
O
episódio explodiu como bomba nos meios desportivos brasileiros. A
diretoria do América ordenou retorno imediato dos seus comandados.
Bermudes foi o mais hostilizado pois também participara das batalhas
entre Remo e Sport no ano anterior, emprestado pelo América. Sem
internet, telegramas foram enviados ao sul do país denunciando os
paraenses. Paraenses que se desculparam marcando duas novas partidas
contra os pernambucanos. Ambas disputadas em clima de amizade e bom
futebol.
O
primeiro jogo foi diante do Payssandu, arquirrival do Remo, clube que
goleara o Sport em 1919 por 4 a 0. Uma parada pra lá de indigesta. O
Payssandu marcou primeiro. O Payssandu aumentou. A torcida ainda
comemorava quando o América acordou em campo. O argentino Salermo
chamou o jogo pra si, balançou o barbante e virou o jogo com a ajuda
de mais dois tentos de Perez. O América vencia o Payssandu por 3 a 2
sob aplausos da torcida paraense.
Era
chegada a hora da revanche contra o Remo. Em jogo, a Taça Joaquim
Inácio. O Remo descansado. O América extenuado. O Remo invicto no
futebol desde sua fundação diante de clubes de fora do estado.
Campo do Remo saindo gente pelo ladrão. Desta vez a arbitragem é
entregue ao então Tenente Benjamin Sodré, o conhecido Mimi Sodré,
ídolo e símbolo do Botafogo-RJ e um dos fundadores do escotismo
brasileiro.
![]() |
| MIMI SODRÉ |
O
Remo larga na frente com Dudu. Desfalcado de vários titulares, o
América luta desesperadamente contra o resultado adverso. Intervalo.
Festa dos paraenses. Segundo tempo. Pênalti cometido por Formigão
para o América. Ayres manda a bomba e Francelisio nem vê ela
passar. O empate já é um grande resultado. Mas Lapinha joga a
melhor partida de sua vida; Salermo, Felipe e Juju tabelam
enlouquecendo a defesa do Remo. A bola sobra nos pés de Rômulo que
lança Perez na corrida. O chute sai seco. Indefensável. 2 a 1!
O
América Futebol Clube é o Campeão do Norte!
A
torcida paraense fica de pé e aplaude os adversários.


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