2 de nov. de 2012






O ano de 1920 começou com muito futebol. No dia 2 de janeiro, jornais anunciavam a disputa de duas exóticas taças no primeiro domingo do ano. Em pleno Estádio da Avenida Malaquias se daria o sensacional match entre os dois bicampeões do estado: América e Sport. O que pegava, porém, era o nome das taças em disputa: Desengano e Desilusão. Felizmente, o Sport desistiu da disputa de última hora e o América jogou contra o Santa Cruz um simples amistoso – sem direito a taça nem baixo astral.

Como nem só de estadual vive o homem, a novidade era a viagem do América para Belém do Pará a convite do Clube do Remo. No ano anterior, os rubro-negros haviam feito excursão vitoriosa contra os paraenses, retornando com o antológico troféu do Leão do Norte. Agora era chegada a vez do América.
O arqueiro Ilo Just do Santa Cruz liderava a disputa no Jornal Pequeno sobre qual era o melhor goal-keeper da cidade. Em seguida, apareciam Franco do Sport, o alvirrubro Euclides e Salgado do América. Ilo Just viria a ser campeão pelo América em 1927, mas não vamos nos adiantar aos fatos.

No dia 3 de janeiro, sábado, assume a LPTD (Liga Pernambucana dos Desportos terrestres), o Dr. João Reynaldo da Costa Lima, desportista e alvirrubro dos quatro costados. A vice-presidência ficava por conta de João Duarte Dias, dirigente do C.S. Peres; o América se fazendo representar com o segundo secretario, Manoel Ansberto Lopes.

O ambiente de calma era cortina de fumaça. O bicampeonato do América insuflara os ânimos de Barbosa Lima Sobrinho, dirigente e antigo remador alvirrubro, adepto do amadorismo radical. Desporto para o futuro governador de Pernambuco era lugar onde dinheiro não devia entrar. As ideias de Sobrinho ganharam adeptos nos círculos desportivos locais, embora muita dessa adesão tenha sido por motivos bem diversos: o medo do tricampeonato do América. Como o clube do coronel Seixas estava de partida para a excursão ao Norte, parte do antagonismo ficou latente, aguardando a provável derrota do clube esmeraldino. Afinal de contas, o América viajava sem três titulares, entre eles o formidável Zé Tasso.

No dia 21 de janeiro de 1920, a delegação do América deixa em comitiva a sede do clube na Rua da Conceição rumo ao cais da Rio Branco. A bordo do paquete Ceará, a delegação do bicampeão estadual viaja com a bandeira verde e branco na proa. Após breve passagem por Fortaleza, a delegação é recebida no Maranhão pelo governador Urbano Santos. Um amistoso é disputado contra o Luso Sport Club com vitória pernambucana por 4 a 2. Logo após a pugna, banquete para oitenta talheres é oferecido pelo Luso aos seus adversários.

No dia 29 de janeiro, o América é recebido com festa em Belém. Pequeno descanso, no dia 1° de fevereiro, a primeira batalha, duelo no gramado encharcado contra o selecionado paraense formado pelos craques do Remo, Payssandu, Brasil e Manaus. O América escalou Nhozinho; Alexi e Ayres; Rômulo, Bermudes e Siza; Lapa, Perez, Juju, Salermo e Felipe. Já os paraenses alinharam Francelisio; Lulu e Mamede; Guimarães, Bordallo e Suisso; Ludgard, Viroxa, Leôncio, Mimi e Arthur.

A arbitragem do Sr. Gastão Bittencourt anula um gol logo de cara do América. Juju numa arrancada espetacular mandou a pelota para as redes de França e já comemorava quando percebeu que o juiz vira irregularidade no lance. Os paraenses então pressionam, descobrindo a genialidade de Nhozinho, substituto do formidável Salgado. Nhozinho defendeu tudo, menos um chute de Leôncio. A vantagem dos donos da casa foi passageira. Esqueceram de avisar ao selecionado paraense que o América tinha canhão na cancha. Bermudes acertou tirombaço do meio campo deixando atordoado todo o Grão-Pará.

O resultado de 1 a 1 foi recebido com festa, tanto na sede do América como no Bar Brasileiro, reduto da torcida paraense em Recife, local onde foi entoado por toda a noite o hino do futuro adversário esmeraldino – sinal das batalhas por vir.

No meio da festa, chega a Belém notícia do falecimento do pai do zagueiro Ayres Valente. O coronel Seixas envia telegrama informando a comitiva. Ayres chora inconsolável e retorna ao Recife deixando a embaixada pernambucana de luto.

O jogo seguinte do América é diante do Combinado Remo-Brasil, no campo do Remo, no dia 5 de fevereiro. Salermo acamado é substituído por Gastão. Recife aguarda ansiosamente a notícia do resultado. Nove horas da noite e um telegrama é afixado na sede do América;

Vencemos jogo Brasil-Remo 1 a 0. Embate renhidíssimo!”

Um rico troféu, oferecido pelo City Bank com sede na capital paraense, é conquistado pelo América. Recife embarca numa festa inesquecível. Com exceção de alguns cartolas adversários achavando que a festa americana estava indo longe demais.

Mas havia o poderoso Clube do Remo, equipe tradicional, campeã do Torneio do Centenário da Revolução de 1817 disputado em Pernambuco. Lulu e Bordallo eram remanescentes daquele time que deslumbrou Recife ao vencer a seleção pernambucana por 4 a 2 e 3 a 2. O América lembrava bem do Remo. América que fora derrotado por 2 a 0 em 1917.

Falar que o match do dia 8 de fevereiro foi uma guerra é pouco. O Remo buscava retomar o título de campeão do Norte que vira escapar entre os dedos no ano anterior, dentro de casa, diante do Sport. O América parecia vítima certa – desfalcado de quatro titulares e sem reforço de nenhum outro time pernambucano. Outro aperitivo especial era a invencibilidade do América. Ao contrário do Sport que fora derrotado duas vezes em 1919, o América se recusava a perder.

Ânimos a flor da pele, estádio lotado, a arbitragem foi oferecida ao Sr. Eurico Viveiros de Castro, ex-vice presidente do Remo, capitão-tenente da canhoneira Aere, filho de Viveiros de Castro, juiz do Supremo Tribunal Federal e genro de Lauro Sodré, governador do Pará. O América assinalou três gols. O árbitro Viveiros de Castro anulou todos eles. Não satisfeito, marcou um pênalti para o Remo.. e o América se retirou de campo sob pedradas.

O episódio explodiu como bomba nos meios desportivos brasileiros. A diretoria do América ordenou retorno imediato dos seus comandados. Bermudes foi o mais hostilizado pois também participara das batalhas entre Remo e Sport no ano anterior, emprestado pelo América. Sem internet, telegramas foram enviados ao sul do país denunciando os paraenses. Paraenses que se desculparam marcando duas novas partidas contra os pernambucanos. Ambas disputadas em clima de amizade e bom futebol.

O primeiro jogo foi diante do Payssandu, arquirrival do Remo, clube que goleara o Sport em 1919 por 4 a 0. Uma parada pra lá de indigesta. O Payssandu marcou primeiro. O Payssandu aumentou. A torcida ainda comemorava quando o América acordou em campo. O argentino Salermo chamou o jogo pra si, balançou o barbante e virou o jogo com a ajuda de mais dois tentos de Perez. O América vencia o Payssandu por 3 a 2 sob aplausos da torcida paraense.

Era chegada a hora da revanche contra o Remo. Em jogo, a Taça Joaquim Inácio. O Remo descansado. O América extenuado. O Remo invicto no futebol desde sua fundação diante de clubes de fora do estado. Campo do Remo saindo gente pelo ladrão. Desta vez a arbitragem é entregue ao então Tenente Benjamin Sodré, o conhecido Mimi Sodré, ídolo e símbolo do Botafogo-RJ e um dos fundadores do escotismo brasileiro.

MIMI SODRÉ


O Remo larga na frente com Dudu. Desfalcado de vários titulares, o América luta desesperadamente contra o resultado adverso. Intervalo. Festa dos paraenses. Segundo tempo. Pênalti cometido por Formigão para o América. Ayres manda a bomba e Francelisio nem vê ela passar. O empate já é um grande resultado. Mas Lapinha joga a melhor partida de sua vida; Salermo, Felipe e Juju tabelam enlouquecendo a defesa do Remo. A bola sobra nos pés de Rômulo que lança Perez na corrida. O chute sai seco. Indefensável. 2 a 1!

O América Futebol Clube é o Campeão do Norte!

A torcida paraense fica de pé e aplaude os adversários. 
 

 


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