Em
janeiro de 1980, sob comando de Lamartine Távora – o mesmo
presidente que trouxe o América de volta ao estadual dezessete anos
antes - o América se muda de armas e bagagens para Jaboatão dos
Guararapes, contando com apoio integral do prefeito da cidade,
Geraldo Melo, torcedor esmeraldino. A ideia parece perfeita, o
América poderia utilizar o Estádio Jefferson de Freitas, além de
contar com verba do município para manter o quadro de jogadores,
promovendo o nome da cidade. Os sonhos são inúmeros, entre eles, a
contratação de Detinho, tricampeão pernambucano pelo Santa Cruz no
início dos anos 70, para o gol, Ivan Brondi, cérebro do
Hexacampeoanto alvirrubro nos anos 60, para o meio campo e Jairzinho,
o Furacão da Copa para o ataque.
De
todos os sonhos, apenas um se concretiza: a Taça de Prata. O
conselheiro e homem forte na FPF, Rubem Moreira, deu uma forcinha, e
o América entrou na disputa da Taça de Prata 1981. Colocado em um
grupo com Náutico, Botafogo-PB, ABC, Central, ASA, Confiança e
Treze, muita gente nem deu bola pro Campeão do Centenário.
Porém,
uma equipe valente montada pelo técnico Jálber de Carvalho
surpreendeu a todos. Na primeira partida, um cartão de boas vindas
dentro de Caruaru diante do Central. O América vence por 1 a 0 e
segue para Campina Grande, onde em seu segundo jogo fora de casa,
obtém empate em 0 a 0 contra o Galo da Borborema.
O
time não tinha grandes mistérios. No gol, a segurança de Batista,
digno herdeiro da tradição de Ilo Just e Leça. A defesa era uma
muralha construída com Gonçalves, Nilo, o veterano Geraílton e
Escada. O meio campo tinha o suor de Givaldo e Pedrinho, mas trazia a
inspiração de Rivaldo, grande revelação do torneio. No ataque,
Valdir, Marcos Pintado e Marcos Costa se não eram craques, sabiam o
que fazer com a pelota.
As
partidas seguintes foram disputadas em Recife contra os favoritos do
grupo. Jálber Carvalho decidiu pela cautela e obteve dois empates: 0
a 0 com o Botafogo-PB e 1 a 1 contra o Náutico.
A
imprensa abriu os olhos. O América liderava o grupo B com cinco
pontos ganhos. Se o ataque não era dos sonhos, a muralha defensiva
parecia inexpugnável, tomando apenas um gol em trezentos e sessenta
minutos de bola rolando.
Veio
o sonho. Ainda mais quando o América vence ABC e Confiança por 2 a
1 chegando aos nove pontos em doze disputados. E na última rodada,
embora o jogo seja em Arapiraca, o América depende somente de um
empate para terminar a fase na liderança. Melhor, mesmo perdendo,
caso o Náutico derrote o Botafogo-PB no Arruda, também estará
classificado.
Explicar
o que aconteceu naquele dia 2 de fevereiro de 1981 é difícil.
Coisas do futebol. O América subira muito rápido, muito cedo. O
time, hospedado no Hotel Jóia, era apenas sorrisos e entrevistas. O
meio-campo Givaldo estava de volta, depois de cumprir suspensão
automática. O ASA estava desclassificado – a única alegria do
time alagoano seria quebrar a invencibilidade do líder da
competição.
Naquela
tarde, vários ônibus procedentes de Recife chegaram à Arapiraca. O
presidente Fernando Fraga prometeu dobrar o bicho de 5 mil cruzeiros,
um carnaval antes do carnaval foi organizado na sede da Estrada do
Arraial.
Eis
que o ASA do técnico Geraldo Pereira, equipe que não havia vencido
ninguém na Taça de Prata, ressurge das cinzas e vence por 2 a 0. A
forte defensiva esmeraldina que não sofrera dois gols de ninguém em
todo o certame, falha na hora em que era proibido falhar.
Apesar
da derrota, os olhos do América se voltam para o Arruda lotado de
alvirrubros. Uma simples vitória Timbu traria a classificação. O
Náutico marca através de Reinaldo, no entanto sofre gol de Magno do
Botafogo-PB. O empate de 1 a 1 classifica o time de Rosa e Silva em
primeiro e o Botafogo-PB em segundo, com o mesmo número de pontos do
América, porém com dois gols a mais no saldo.
Daí
em diante vem a derrocada. A cidade de Jaboatão jamais adotou o time
do América como seu. Enquanto havia a figura do secretário de
Assuntos Jurídicos da prefeitura, Sílvio Beltrão, envolvido com a
agremiação, as coisas corriam organizadas. Depois o barco afundou.
Salários atrasados, jogadores se mandando, ajuda de custo solicitada
junto à FPF, discurso de que o clube tinha acabado, o América
segura o técnico Hugo Benjamin e apela para o time de juvenis.
O
presidente que assumiu
com sonhos, vive seu momento de pesadelo. E antes que alguém invente
de botar a culpa dos infortúnios em Jaboatão, convém lembrar que a
mudança de sede foi apenas mais um capítulo na longa tragédia de
um clube perdido em sua própria história. Um clube assistindo as
ilusões perdidas no ASA de Arapiraca enquanto ouvia serenatas...

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