23 de nov. de 2012







Em janeiro de 1980, sob comando de Lamartine Távora – o mesmo presidente que trouxe o América de volta ao estadual dezessete anos antes - o América se muda de armas e bagagens para Jaboatão dos Guararapes, contando com apoio integral do prefeito da cidade, Geraldo Melo, torcedor esmeraldino. A ideia parece perfeita, o América poderia utilizar o Estádio Jefferson de Freitas, além de contar com verba do município para manter o quadro de jogadores, promovendo o nome da cidade. Os sonhos são inúmeros, entre eles, a contratação de Detinho, tricampeão pernambucano pelo Santa Cruz no início dos anos 70, para o gol, Ivan Brondi, cérebro do Hexacampeoanto alvirrubro nos anos 60, para o meio campo e Jairzinho, o Furacão da Copa para o ataque.

De todos os sonhos, apenas um se concretiza: a Taça de Prata. O conselheiro e homem forte na FPF, Rubem Moreira, deu uma forcinha, e o América entrou na disputa da Taça de Prata 1981. Colocado em um grupo com Náutico, Botafogo-PB, ABC, Central, ASA, Confiança e Treze, muita gente nem deu bola pro Campeão do Centenário. 
 
Porém, uma equipe valente montada pelo técnico Jálber de Carvalho surpreendeu a todos. Na primeira partida, um cartão de boas vindas dentro de Caruaru diante do Central. O América vence por 1 a 0 e segue para Campina Grande, onde em seu segundo jogo fora de casa, obtém empate em 0 a 0 contra o Galo da Borborema.
O time não tinha grandes mistérios. No gol, a segurança de Batista, digno herdeiro da tradição de Ilo Just e Leça. A defesa era uma muralha construída com Gonçalves, Nilo, o veterano Geraílton e Escada. O meio campo tinha o suor de Givaldo e Pedrinho, mas trazia a inspiração de Rivaldo, grande revelação do torneio. No ataque, Valdir, Marcos Pintado e Marcos Costa se não eram craques, sabiam o que fazer com a pelota.
As partidas seguintes foram disputadas em Recife contra os favoritos do grupo. Jálber Carvalho decidiu pela cautela e obteve dois empates: 0 a 0 com o Botafogo-PB e 1 a 1 contra o Náutico.

A imprensa abriu os olhos. O América liderava o grupo B com cinco pontos ganhos. Se o ataque não era dos sonhos, a muralha defensiva parecia inexpugnável, tomando apenas um gol em trezentos e sessenta minutos de bola rolando.
Veio o sonho. Ainda mais quando o América vence ABC e Confiança por 2 a 1 chegando aos nove pontos em doze disputados. E na última rodada, embora o jogo seja em Arapiraca, o América depende somente de um empate para terminar a fase na liderança. Melhor, mesmo perdendo, caso o Náutico derrote o Botafogo-PB no Arruda, também estará classificado.

Explicar o que aconteceu naquele dia 2 de fevereiro de 1981 é difícil. Coisas do futebol. O América subira muito rápido, muito cedo. O time, hospedado no Hotel Jóia, era apenas sorrisos e entrevistas. O meio-campo Givaldo estava de volta, depois de cumprir suspensão automática. O ASA estava desclassificado – a única alegria do time alagoano seria quebrar a invencibilidade do líder da competição.
Naquela tarde, vários ônibus procedentes de Recife chegaram à Arapiraca. O presidente Fernando Fraga prometeu dobrar o bicho de 5 mil cruzeiros, um carnaval antes do carnaval foi organizado na sede da Estrada do Arraial.
Eis que o ASA do técnico Geraldo Pereira, equipe que não havia vencido ninguém na Taça de Prata, ressurge das cinzas e vence por 2 a 0. A forte defensiva esmeraldina que não sofrera dois gols de ninguém em todo o certame, falha na hora em que era proibido falhar. 
 
Apesar da derrota, os olhos do América se voltam para o Arruda lotado de alvirrubros. Uma simples vitória Timbu traria a classificação. O Náutico marca através de Reinaldo, no entanto sofre gol de Magno do Botafogo-PB. O empate de 1 a 1 classifica o time de Rosa e Silva em primeiro e o Botafogo-PB em segundo, com o mesmo número de pontos do América, porém com dois gols a mais no saldo.

Daí em diante vem a derrocada. A cidade de Jaboatão jamais adotou o time do América como seu. Enquanto havia a figura do secretário de Assuntos Jurídicos da prefeitura, Sílvio Beltrão, envolvido com a agremiação, as coisas corriam organizadas. Depois o barco afundou. Salários atrasados, jogadores se mandando, ajuda de custo solicitada junto à FPF, discurso de que o clube tinha acabado, o América segura o técnico Hugo Benjamin e apela para o time de juvenis. 

O presidente que assumiu com sonhos, vive seu momento de pesadelo. E antes que alguém invente de botar a culpa dos infortúnios em Jaboatão, convém lembrar que a mudança de sede foi apenas mais um capítulo na longa tragédia de um clube perdido em sua própria história. Um clube assistindo as ilusões perdidas no ASA de Arapiraca enquanto ouvia serenatas...   



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