Todas
as grandes equipes do mundo da bola conhecem apogeu e queda. Os
ciclos se repetem desde que a primeira bola balançou as redes no
século XIX e com o América, tetracampeão pernambucano, não seria
diferente. O momento chegou inesperado, durante as comemorações do
título do Centenário, quando ninguém poderia prever o fim de
festa.
No
dia 26 de janeiro de 1923, o Jornal Pequeno anuncia em primeira mão
a excursão do América ao vizinho estado de Alagoas. O embarque da
embaixada esmeraldina dependia apenas do retorno dos atletas Zé
Tasso, Juju, Lapinha e Zizi emprestados ao Santa Cruz para amistosos
na Bahia. Os atletas que acabavam de comemorar a glória sobre o
Sport, nem tiveram tempo para aproveitar as férias, partiram na
excursão tricolor a Boa Terra.. As consequências seriam fatais.
No
comando da delegação alagoana, seguia o coronel Arthur Campello,
presidente do América, auxiliado pelo diretor técnico Oscar Paiva.
Cícero Melo foi convidado como árbitro oficial. Todos os jogadores
que não se encontravam servindo ao Santa Cruz foram convocados para
treinamento as seis da manhã do dia 27 de janeiro, no campo da
Jaqueira.
Zé
Tasso voltou de Salvador angustiado. Acostumado a rotina das vitórias
pelo América, o craque americano ficou de cabeça quente com a
goleada de 6 a 0 sofrida na despedida baiana. Zé
Tasso chegou, beijou os familiares e partiu. O América viaja em
carro atrelado ao trem que parte da gare
das Cinco Pontas rumo a Maceió. Os jogadores improvisam uma
orquestra de cordas denominada de 'Orquestra dos Periquitos'. O
convite fora feito pelo Centro Sportivo Alagoano (CSA). Na capital
alagoana, o América irá realizar duas partidas, contra o CSA e o
Clube de Regatas Brasil (CRB). De última hora, o coronel Arthur
Campello é substituído pelo vice-presidente do clube, coronel
Ernesto Leça.
A
recepção em Maceió é monumental. O caminho da gare até o
Hotel Luso foi acompanhado por grande número de automóveis. Durante
a noite de sábado, o América torna-se alvo de numerosas
demonstrações de carinho do torcedor alagoano.
No
dia 4 de fevereiro, o campo do Mutange estava lotado. O CSA era o
adversário. O primeiro tempo surpreende o América; o arqueiro
Nhozinho tendo que realizar alguns milagres. José Tasso grita e
exige seriedade dos companheiros. O CSA abre o marcador. A plateia
vai ao delírio. O primeiro tempo se encerra com a vantagem dos
alagoanos.
O
intervalo é de muita conversa entre os jogadores esmeraldinos. O CSA
é osso duro de roer. Tasso e Lapa voltam tabelando na segunda fase,
mas Lapa perde a chance de empatar. Bobeira do CSA, José Tasso deixa
sua marca nas redes do goleiro Mendeo. Peleja empatada e pressão do
América. Lapa se redime dos gols perdidos e dá números finais ao
amistoso. América 2 a 1.
Os
aplausos do público não alteram o semblante preocupado de José
Tasso. Para vencer não basta o nome, o craque tem de correr e fazer
valer a sua categoria. Prova maior do acerto do pensamento do
artilheiro americano é o jogo seguinte. Numa batalha colossal, o CRB
bate o América por 4 a 3 e Maceió explode num imenso carnaval. A
arbitragem do Sr. Aguinaldo Xavier vira tema de debates, acusações
sobre a lisura do juiz são levantadas por Álvaro Peixoto,
presidente do CSA, mas a realidade da derrota permanece.
O
pior, no entanto, estava por vir. Reportagem do Jornal do Commercio
afirma que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) irá punir
o América; o clube pernambucano tivera o pedido de excursionar ao
estado de Alagoas indeferido pois não havia nenhuma Federação
reconhecida pela entidade máxima do nosso esporte na Terra dos
Marechais. Mesmo com o pedido negado pela CBD, o América viajara sem
tomar conhecimento das punições cabíveis.
Felizmente
para todos, o carnaval chega antes da guerra entre América e CBD.
E
depois do carnaval, a trajetória de triunfos americanos chega a seu
final. O canto do cisne daquele timaço ocorrendo em terras
alagoanas. Durante seis anos, a equipe dominou o cenário do
Norte-Nordeste com autoridade e gols, muitos gols. Mas aquele jogo
contra o CRB demonstra que o futebol é feito de ciclos. Mesmo o
melhor dos esquadrões não resiste ao tempo e aos adversários que
sonham lhe derrotar.
José
Tasso ainda seria campeão pernambucano, mas os tempos já seriam
outros.
NOTA DO BLOG - Importante o comentário do Mestre Távora. A wikipedia menciona o Troféu Nordeste de 1923, inclusive com os resultados entre as equipes.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Trof%C3%A9u_Nordeste
Pois bem, nas minhas pesquisas, revirei os jornais daquela época e chequei as informações com pesquisador Carlos Celso Cordeiro. Conclusão? Não existiu o tal troféu. Qualquer evidencia em contrário, favor contactar com este Blog...
Essa excursão por acaso é o primeiro campeonato regional em que se tem história, o TROFEU NORDESTE? http://pt.wikipedia.org/wiki/Trof%C3%A9u_Nordeste
ResponderExcluirPS.: Belo livro. Eu como esmeraldino estou emocionado por saber das histórias que meu pai um dia me contou.
SAUDAÇOES ESMERALDINAS