Por ROBERTO VIEIRA
O amor tem dessas
ironias para os inocentes que cruzam seu caminho. Pode ir das alturas
nepalesas ao abismo pacífico num piscar de olhos. Claro que não é
assim tão simples, nem tão átimo de segundo; mas assim parece ao
apaixonado flagrado pela tempestade.
Com nosso herói foi
assim. Passara do zero absoluto ao razão da existência daquela
pequena de boca miúda e cabelos brejeiros. Nunca imaginara
felicidade igual. Era amado e correspondia na mesma proporção em
gênero, número e grau. Feitos um pro outro. Os senões eram
irrisórios, partículas, bisonhos movimentos atômicos no coração
dos amantes.
A beleza do amor se
mostrava em toda sua exuberância e altivez.
E não se pode negar a
verdade: foi feliz. Feliz, não. Felicíssimo. O mais feliz e
transbordante dos mortais desde Romeu.
Mas o amor tem seus
caprichos. Seus detalhes. O amor é arisco e se fere nos espinhos do
dia a dia. Cada ferida, um adeus. Um adeus diminuto, feito de muitos
adeuses paralelos e infinitos. Dolorosos desencontros e sinais de
alerta, versos de Neruda e sambas de Paulinho da Viola.
Ela já não sorria o
sorriso brejeiro. Sua boca miúda lhe negava o calor dos beijos. O
corpo que seduzia suas noites e sonhos se tornou distante e fugidio.
Primeiro se foram as palavras de amor, depois as palavras e
finalmente, silêncio.
O amor tem dessas
ironias para os inocentes que cruzam seu caminho. Pode ir das alturas
nepalesas ao abismo pacífico num piscar de olhos. Claro que não é
assim tão simples, nem tão átimo de segundo; mas assim parece ao
apaixonado flagrado pela tempestade.
Ele já não
significava tanto para a mulher amada. Já não era o ar que ela
respirava, nem o mar onde banhava seus pensamentos nas noites de luar
tropical. Deixara de ser a lua e as estrelas, para ser grão de
areia. Depois nem isso. Era um amigo. Um amigo querido carregado de
lembranças de pretérito desejo e carnaval. Alguém importante, mas
apenas alguém.
Ora, quem aceita o
predicado quando foi sujeito da oração? O infeliz esperneou,
arrancou os cabelos, tomou cicuta em pó, ameaçou se jogar em chamas
ao Ganges, brandiu suas mãos perante ceús e Hades, fez promessas no
reveillon na praia de Boa Viagem, incensou o apartamento em viagens
mirabolantes em busca do tempo perdido.
Até que um dia o sol
voltou a brilhar sorrateiramente.
O universo conspirava
contra aquele amor. Ponto final.
Era fato normal e
corriqueiro. Capítulo milhões de vezes repetido nesta batida terra
prometida. Não fosse a tristeza solitária do nosso herói, não
haveria choro nem vela.
E felizmente, nem
veneno ou tragédia shakesperiana.
Apenas um suspiro de um
amor de verão que nasceu, amou e morreu.
Julieta estava viva e
bela.
Julieta que não amava
mais Romeu...

Maravilha ! Fato tão corriqueiro mas narrado assim vira poesia!
ResponderExcluirPS: A palavra ÁTIMO é de minha propriedade !