22 de nov. de 2012





Por ROBERTO VIEIRA           



O amor tem dessas ironias para os inocentes que cruzam seu caminho. Pode ir das alturas nepalesas ao abismo pacífico num piscar de olhos. Claro que não é assim tão simples, nem tão átimo de segundo; mas assim parece ao apaixonado flagrado pela tempestade.

Com nosso herói foi assim. Passara do zero absoluto ao razão da existência daquela pequena de boca miúda e cabelos brejeiros. Nunca imaginara felicidade igual. Era amado e correspondia na mesma proporção em gênero, número e grau. Feitos um pro outro. Os senões eram irrisórios, partículas, bisonhos movimentos atômicos no coração dos amantes.

A beleza do amor se mostrava em toda sua exuberância e altivez.

E não se pode negar a verdade: foi feliz. Feliz, não. Felicíssimo. O mais feliz e transbordante dos mortais desde Romeu.

Mas o amor tem seus caprichos. Seus detalhes. O amor é arisco e se fere nos espinhos do dia a dia. Cada ferida, um adeus. Um adeus diminuto, feito de muitos adeuses paralelos e infinitos. Dolorosos desencontros e sinais de alerta, versos de Neruda e sambas de Paulinho da Viola.

Ela já não sorria o sorriso brejeiro. Sua boca miúda lhe negava o calor dos beijos. O corpo que seduzia suas noites e sonhos se tornou distante e fugidio. Primeiro se foram as palavras de amor, depois as palavras e finalmente, silêncio.

O amor tem dessas ironias para os inocentes que cruzam seu caminho. Pode ir das alturas nepalesas ao abismo pacífico num piscar de olhos. Claro que não é assim tão simples, nem tão átimo de segundo; mas assim parece ao apaixonado flagrado pela tempestade.

Ele já não significava tanto para a mulher amada. Já não era o ar que ela respirava, nem o mar onde banhava seus pensamentos nas noites de luar tropical. Deixara de ser a lua e as estrelas, para ser grão de areia. Depois nem isso. Era um amigo. Um amigo querido carregado de lembranças de pretérito desejo e carnaval. Alguém importante, mas apenas alguém.

Ora, quem aceita o predicado quando foi sujeito da oração? O infeliz esperneou, arrancou os cabelos, tomou cicuta em pó, ameaçou se jogar em chamas ao Ganges, brandiu suas mãos perante ceús e Hades, fez promessas no reveillon na praia de Boa Viagem, incensou o apartamento em viagens mirabolantes em busca do tempo perdido.

Até que um dia o sol voltou a brilhar sorrateiramente.

O universo conspirava contra aquele amor. Ponto final.

Era fato normal e corriqueiro. Capítulo milhões de vezes repetido nesta batida terra prometida. Não fosse a tristeza solitária do nosso herói, não haveria choro nem vela.

E felizmente, nem veneno ou tragédia shakesperiana.

Apenas um suspiro de um amor de verão que nasceu, amou e morreu.

Julieta estava viva e bela.

Julieta que não amava mais Romeu...  


Um comentário:

  1. Maravilha ! Fato tão corriqueiro mas narrado assim vira poesia!

    PS: A palavra ÁTIMO é de minha propriedade !

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Comentários