23 de nov. de 2012




A morte de Ari Ercílio mas palavras do Anjo... texto enviado pelo MDM Carlos Celso Cordeiro





1 – Amigos, só conhecia Ari Ercílio do “Mario Filho”. No passado, o campo pequeno criava uma intimidade entre o torcedor e o espetáculo. Era uma relação muito mais intensa, uma convivência muito mais dramática. O torcedor sentia-se como um jogador a mais, dando botinadas em todas as direções. Mas o ex-Maracanã inaugurou uma nova distância entre o público e o espetáculo.

2 – E havia entre mim e Ari Ercílio, a separar-nos, essa distância imensa. Nunca lhe apertei a mão, nunca um “oba” nos ligou e ele seria para mim quase um desconhecido. Mas aí é que está: - o sentimento pode contrariar todas as leis da óptica. Eu gostava do gaúcho e, por ser gaúcho, dei-lhe o nome de “Domingos dos Pampas”. Várias vezes, o Marcelo Soares de Moura, em pleno fogo das batalhas, dizia: – Boa do “Domingos dos Pampas”. E o Miguel Lins era outro. Várias vezes, disse-me: – “Bacana essa do Domingos dos Pampas”. E esse “Domingos dos Pampas” criou, entre mim e ele, uma boa, nobilíssima amizade. Apesar da distância do “Mario Filho”, e da miopia que me persegue, tínhamos uma proximidade amiga.

3 – Até que, anteontem, ouço na televisão: – “Morreu Ari Ercílio”. A chamada morte natural não agride com essa violência. Há a doença, a história da doença, vai preparando não só o próprio doente, mas os outros. Há uma progressão compassiva. O pior é quando tudo acontece de repente. A pessoa está viva, tem um vasto futuro, criará seus filhos e, depois, os filhos dos seus filhos. E, de repente, a queda.

4 – Ari estava mais vivo do que nunca. Já voltava. Mas resolveu dar mais dois ou três passos. E veio a queda. Seu corpo desliza, rola, mergulha. Por que pescar ali, onde o pescador está a um milímetro da vertigem, olhando cara a cara o precipício? Outros já morreram naquele local ou nas proximidades. Lembro-me de Jackson Figueredo, que pescava também, caiu e cujo corpo foi aparecer a milhas e milhas de distância.

5 – Vejam vocês: – eu não ia escrever sobre Ari Ercílio. E explico: – não há nada mais antiliterário do que o verdadeiro sentimento. Sim, o verdadeiro sentimento escreve mal, muito mal. Quando uma crônica de saudade sai perfeita, desconfiemos da saudade: Ia dedicar a Ari Ercílio duas linhas, de passagem. E já estou chegando ao fim do meu espaço.

6 – Eis o que eu queria dizer: – a morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. Vocês imaginem que Ari Ercílio tinha feito um seguro de vida de não sei quantos milhões. Segundo me informa o Denis Menezes, a senhora do grande zagueiro ouvira do seu marido este vaticínio: – “Eu não emplaco 73”. Era já o processo da morte.

7 – Outra coisa impressionante: – Ari Ercílio estava pescando num lugar sem problemas: Nisto passa alguém e diz-lhe: – “Não adianta, companheiro. Ai não dá nada. Peixe é ali. Olha: – ali”. Era a morte que o chamava. E, segundo Denis Menezes, o grande jogador chamou a esposa para descer. Ela não quis.

8 – Ele queria terminar sua carreira no Fluminense. Terminou a carreira e a vida. Há entre Ari Ercílio e o Fluminense um vínculo mais forte que a vida e do que a morte. Amém.

(Nelson Rodrigues, O Globo, 22/11/1972)


5 comentários:

  1. Grande, Nelson Rodrigues! Insuperável. Inigualável. Por isso mesmo, merecida a homenagem que a Federação irá lhe fazer na 3ª feira. E nada melhor que ouvir o Mestre Roberto falar do grande Nelson. Vamos todos na terça ao Hotel Mercure Recife Metrópolis, na Ilha do Leite, aplaudir ao amigo Roberto. 9 horas da matina, gente! Todo mundo lá! O que não vai faltar é alegria com o Náutico garantido na Sul-Americana!

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    1. Nelson Rodrigues é IMORTAL, mas creio eu que a nossa Federação Pernambucana de Futebol vacilou em homenagear um Pernambucano torce para o Fluminense Carioca!!!!

      Porque não homenagearam Capiba, um tricolor que cantou em verso e prosa seu amor pelo Santa Cruz???

      Porque não o Paraibano naturalizado Pernambucano Ariano Suassuna, que veste as cores da Cachorra de Peruca e chama de Ex-porte Fino???

      No Nautico, existe alguém mais importante no meio literário que os mestres Lucidios e CCC???

      E claro, amigos! Porque não o saudoso João Cabral de Melo Neto, que além de escrever algumas poesias sobre futebol, jogou sua bolinha glorioso América de Casa Amarela e até no Santinha???

      Repito!!!

      Nelson Rodrigues é IMORTAL, mas dentro da Federação PErnambucana de Futebol esta biblioteca deveria ser homenagear aquele que REALMENTE VESTEM NOSSAS CORES!!

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    2. Terça-feira de Manhã? Pessimo pra mim... :-/

      De qualquer forma, ficarei na torcida pelos mestres... :-)

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  2. Como devoto do Padim Nelson, sou suspeito pra tecer novena sobre o milagre...

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Comentários