7 de out. de 2012




Por ROBERTO VIEIRA            


Certa vez, no Hospital Português.

Um antigo médico de ares professorais.

Me perguntou se eu era mesmo poeta.

Se escrevia em versos alexandrinos, coisa e tal.

Pois ele fora informado que eu me imaginava escritor.

Sorri.

Isso lá é pergunta que se faça a um cidadão?

Assim, como quem nos pergunta se a gente é alto ou magro?

Mas no caminho de casa botei pra tocar uma fita K-7.

Nela rolavam as palavras de Catulo.

Um maranhense batizado cearense.

Naqueles dias e noites do século passado.

Eu não sabia bem o que era e o que não era.

Nada muito diferente de hoje em dia.

Mas a poesia.

A poesia não se responde se existe ou inexiste.

A poesia não é escolhida - ela escolhe covardemente o indivíduo.

Digo covardemente, pois a vida do poeta é frágil embarcação num oceano de trevas.

Brevemente iluminado por um grande amor.

Mas poucos poetas possuem na existência um definitivo amor.

Pois bem.

Lá estava Catulo na noite pernambucana.

Catulo que foi chamado de extraordinário e arrebatador por... Vila Lobos.

Catulo que foi denominado o 'sublime cantor da alma brasileira'.

Por Adelaide Castro Alves, a irmã de Castro Alves.

Catulo que surge apenas quando se canta o luar do sertão.

Eis que se declama 'A Música do Morto'... e eu deixo me levar em sonhação:




A mulher mais linda do sertão.

De repente eu me pus a imaginar qual o destino do gaiteiro...

Seu aluno não demora a revelar.





Lá estava a cruz.

Lá estava eu dirigindo e hipnotizado.





De amor morrera o tal gaiteiro.

Canto de amor derradeiro.



Longo é o itinerário de quem ama.

Tão longo quanto o da poesia.

Poesia que não se pergunta - apenas habita o coração humano, e vive.

Quando a esperança morre, emurchecida.

Quando o peito solitário prosseguindo seu longo itinerário.

Nela insiste.

Não por querer, mas por destino.

Independente de um verso alexandrino.

..........................

Catulo morreu pobre e só.

Herdeiro de si mesmo.

Escravo do violão.

Violão que tornou gente de bem.

Pois depois de Catulo.

O violão também passou a cantar as lágrimas, o luar e o sertão do coração de alguém...


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