Por ROBERTO VIEIRA
OK... os dirigentes têm culpa no cartório, e muita. Excesso de paixão e pouco profissionalismo na gerência dos clubes derrubam qualquer um. Mas vamos aqui analisar outros fatores, já que paixão e amadorismo na imensa maioria dos clubes brasileiros, quase todos na bancarrota...
Imagine sua empresa situada numa das regiões mais pobres do Brasil. Com faturamento de 30 milhões de reais este ano – nos anos anteriores era 10% deste valor - afastada dos centros decisórios no seu ramo de atividade.Passivo trabalhista milionário herdado de gestões anteriores.Possuidora de parque industrial obsoleto e sucateado através das últimas décadas, prestes a perder o patrimônio na justiça ao primeiro piscar de olhos. Você enfrenta empresas com faturamento de 300 milhões de reais, reconhecidas mundialmente em seu ramo, localizadas no eixo do poder econômico nacional. Os passivos trabalhistas destas empresas também são imensos, entretanto contam com salvaguardas governamentais populistas e infinitas.
Você sobrevive como o patinho feio, certo? Errado.
Errado pois o assunto é futebol e no futebol os torcedores esquecem os princípios da lógica matemática. Porque no futebol, segundo afirmam, tudo é possível. Todo mundo deseja a vitória, esquecido que de um lado tempos o todo poderoso Golias e do outro o minúsculo Davi, nem todo dia sendo dia de funda. Principalmente quando o caso é pontos corridos. Pontos corridos que foram criados em certames nacionais na certeza de que clube pequeno jamais ia beliscar a taça. Pontos corridos que exigem elenco, estrutura e logística impensáveis para quem luta pela sobrevivência com a cuia na mão. Se duvida, procure saber quantas vezes um clube fora do eixo Madri/Barcelona venceu o certame espanhol nos últimos 30 anos. Ou melhor, leia sobre os milagres de Cagliari,Verona e Sampdoria nos últimos 40 anos de calcio.
Discute-se atualmente a péssima campanha fora de casa das equipes pernambucanas. Maldade.Como se fosse a coisa mais fácil do mundo um clube do universo africano brasileiro chegar aos recantos de primeiro mundo em nosso país e sair ganhando, assim sem mais nem menos. Pernambuco nunca teve vida fácil em torneios nacionais - nem no Brasileiro de seleções, nem em Taça Brasil ou Campeonatos Nacionais. A história registra momentos de triunfo localizados, conseguidos com muito esforço e garra por equipes como o Náutico de Bita, o Santa de Givanildo ou o Sport de Nelsinho Batista e Queixada.
Pernambuco ainda é primo pobre, não importa o que afirma a propaganda governamental sobre o crescimento vertiginoso da nossa economia neste século. O fosso existente entre nossa região com pampas, paulicéias e cidades maravilhosas é calamitoso. Fruto do bicentenário de desigualdade pós chegada da côrte portuguesa em Pindorama.
Mas então, pergunta o torcedor sentado nas arquibancadas dos nossos estádios de cimento e arame, fossos e sesmarias, a derrota é inevitável?
Não. A derrota não é destino convicto pra seu ninguém. Com gestão adulta dos parcos recursos, com dirigentes antenados com a modernidade, com a quebra dos paradigmas subdesenvolvidos de que 'atleta bom é atleta de fora', com a mesma paixão que cega e também nos faz insistir em sermos grandes, com a lendária teimosia de que somos herdeiros podemos reverter o quadro de forma gradativa. Porém, dois fatos não devem deixar de frequentar nosso pensamento.
O primeiro é o pecado de crucificarmos nossas equipes sem levarmos em conta a desproporção dos elementos da equação. O trio de ferro da nossa capital é forte em termos estaduais, mas pequeno diante dos donos deste país quando enfrentamos a primeira divisão.
O segundo é nos perguntarmos porque as empresas que atracaram em Suape não gastam um mísero centavo no patrocínio dos nossos clubes. Estas empresas que representam o atual boom de nossa economia podem ser a resposta ao incremento das receitas das equipes pernambucanas.
Mas qual empresa vai patrocinar uma equipe que não apresenta balanços financeiros confiáveis? Qual empresa vai financiar uma equipe que não possua uma campanha de marketing competente?
Porque enquanto não houver limpidez no exercício financeiro dos nossos clubes, o capital continuará longe demais dos nossos campos.
E longe demais dos capitais, não adianta exigir o impossível das nossas cores. Futebol é caixinha de surpresas apenas no varejo, pois no atacado, em campeonatos de pontos corridos, quem vence é a grana.
* O texto nasceu de uma conversa com Mestre Lucídio José de Oliveira

Excelente abordagem,Roberto.Explica bem nossa situação no contexto histórico,quando perdemos vários 'bondes da história'...Mas continuo sem aceitar que no nosso atual momento(alvirrubro),com uma equipe experiente,sem a pressão de uma zona de rebaixamento,jogando bem e impondo respeito em seus domínios,mudemos tanto quando jogamos fora de casa.O início do jogo contra o Galo,avassalador,quando perdemos um gol claro com 11 segundos de bola rolando,é o retrato às avessas do que fazemos fora.Se o jogo fosse em BH,certamente bateríamos o centro para trás,recuando a bola até chegar em Gideão,que daria uma bomba e começaria o sufoco...O que desejo pro meu time é a manutenção da ousadia,a exploração das nossas qualidades quando jogamos fora.Se somos ofensivos e rápidos em casa,que continuemos assim longe dos Aflitos.Dessa forma,ao final dos 19 jogos fora,teremos vencido bem mais do que nos últimos anos.E lembro aos Mestres Roberto e Lucídio,que tivemos muita dificuldade para vencer fora na série B do ano passado,quando enfrentamos equipes com problemas financeiros bem maiores que os nossos.
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