Por ROBERTO VIEIRA
Conheci o Feola em 1937. Magrinho, magrinho. Era o dia 30 de novembro, e o Feola chegou em Recife enjoado dos balanços do navio Ararangua. O Edmundo Toledo levou Feola e os jogadores do São Paulo para o Hotel Avenida, nem chique nem pensão. Ficaram lá recebendo fotógrafos e alguns jornalistas do Jornal Pequeno, do Jornal do Commercio e do Diario.
Afinal de contas, era o time da fé.
Curioso ver um time de marmanjos treinado por um menino de 28 anos. O King até que respeitava o Vicente, mas Aníbal e Junqueirinha tratavam Feola como irmão mais velho. O São Paulo vinha chateado com as confusões pros lados da Bahia, mas em Pernambuco as coisas correram tranquilas. Teve festa, dança, futebol e o Felipelli quase se casou.
Dois dias depois da chegada veio o primeiro jogo contra o Náutico. Eu fui o local da partida. O verde estádio da Jaqueira. Eu era famoso na cidade. O silêncio das árvores centenárias, velho campo de batalhas holandesas, transformado em campo de futebol. Em vez de espadas, chuteiras e gols. Antes da peleja, Feola ficou chutando a bola de lá pra cá, Feola havia sido um ponta direita nos campos da várzea paulistana. Tão bom que virou técnico. Um Telê Santana precoce.
Os olhos do Feola brilhavam quando olhavam para o gramado. Seus sonhos eram pura paixão. Eu já conhecia a seleção brasileira. Juro que fiquei pensando em como seria belo ter a seleção comandada por aquele rapaz apaixonado. Bastava olhar para ele: Feola amava o futebol e o seu São Paulo.
O Náutico venceu aquela partida. Um golaço do Celso. Osíris fez milagre num chute do Junqueirinha. Wilson perdeu um pênalti. Feola não gostou do resultado, mas recebeu comovido o abraço dos adversários.
Nos dias que se seguiram, o time da fé deu o troco na gente. Os comandados de Feola ganharam do Sport, do Santa Cruz e do Tramways. Dando show de bola.
Foi a última vez que vi Feola. Uns vinte anos depois ele chegava ovacionado em Recife. Campeão do mundo. Rechonchudo. Por força de uma escala aérea, Recife foi a primeira cidade brasileira a receber os campeões do mundo de 1958. Teve festa pra Vavá, santo de casa. Mas teve muito papel picado para aquele treinador pacato e bonachão. De longe, eu fiquei feliz. Pois agora eu já não era campo, era lembranças.
Como a vida de treinador tem dessas coisas, não posso deixar de mencionar os tristes episódios de 1966. Os jornais pedindo o escalpo do meu amigo. Esquecidos que na vida nem tudo são vitórias. Feola ficou a margem do tempo, como eu mesmo. Os homens me esqueceram também. Eu e a igrejinha perdida na beira do rio.
Mas certo dia eu me tornei um parque. Nada de futebol. Nada de namoros indecentes atrás da igrejinha. Eu me tornei um parque. A criançada, e até mesmo os idosos de plantão, nem imaginam que eu já fui teatro. Cenário de vitórias, lágrimas, títulos e desalegrias. Como nem imaginam que justamente nesse domingo, primeiro de novembro, o Feola completa cem anos. Um centenário.
As pessoas não lembram do Feola, ou quando lembram, recordam-se daquele senhor gordinho e com olhar perdido no tempo.
Eu não.
Eu me recordo do garoto de 28 anos que ousou treinar um time de futebol. Um garoto magro e apaixonado.
Um garoto que percorreu, com seus pés meu gramado num distante dezembro de 1937. Chutou uma bola. Sorriu para a noite.
Um garoto com mais de 100 anos.
Como?
Feola já se foi?
Ah, meu amigo, você pode entender da vida.
Mas eu e o Feola entendemos da eternidade...
* O texto se encontra no livro 'No blog do Juca Kfouri'. Foi escrito quando do centenário do técnico Vicente Feola.

Lucídio disse: Pergunto a Carlos Celso: você tem conhecimento ou sabe dar notícia de Pilombeta? Zagueiro de área ou latreal pela direita. Engenheiro? Jogava pela seleção da Escola de Engenharia na época? E Pilombeta, nome próprioou apelido?
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