10 de ago. de 2012







Por ROBERTO VIEIRA          



1987.



Estava em Salvador.



Cascavilhando a mim mesmo.



Cidade alta, velha pensão.



Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.



Paisagem diferente da mansão à beira mar onde morreu.



O homem que era nada.



O homem que tornou-se cravo e canela.



Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.



E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.



A vida é o pelourinho da alma.



Dona Flor?



O remédio.



Durante minha estada em Salvador.



Futebol era assunto de conversa.



Popó!



Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios



me contou a seguinte história:



"Popó!"



Salvador de todos os santos e negros era branca.



Pelo menos nos times de futebol.



Ate chegar o Popó.



Popó de habilidade incomparável.



Jorge Amado gostava da bola.



De política.



Mas como futebol podia ser branco?



O Ypiranga se revolta.



"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola!"



Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.



Jorge Amado se veste de amarelo.



Naquela mesma casa pobre.



Olhos postos no mar.



Popó marcando gols.



Jorge Amado não resiste.



Campo da Graça.



O jovem escritor grita gol de Popó.



Ao seu lado.



Uma menina e seu pai.



Pulam em delírio.



Jorge Amado se abraça aos dois.



O comunista e a santa.



Não resisti e perguntei:



"Santa?"



O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.



"Pois é... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"



Escureceu.



Já não havia homem velho.



Já não havia cigarro.



Apenas o mar da infinita Salvador.



Voltei caminhando para a Pousada.



O farol me indicando o descaminho.



Eu e meus pensamentos.



O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.



Terra de comunistas.



E santos.



Todos os santos...


Um comentário:

  1. Jorge Amado, Popó, Irmã Dulce... Estão viajando endereçado aos amigos. Abdon Jordão, em Salvador, Lucilo, Ayrton Pelim, Fernando Florêncio. Eu era vidrado em Popó e Jorge Amado. A Irmão Dulce é uma coisa à parte.

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