16 de jul. de 2012



Por ROBERTO VIEIRA






Mentem os livros de história.


Como sempre.


O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.


O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.


O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.


Às margens do Rio Maracanã.


O Brasil que se imaginava rico e febril.


O Brasil que sonhva com vitórias nos campos de batalha.


O Brasil que se vestia de branco e azul.


Morreu.


Pelas chuteiras que apedrejam.


Morreu às cinco da tarde em um chute de Alcides.


O alferes Barbosa no chão.


Corpo e alma dilacerados e inconfidentes.


Sem Bastilhas.


Porém, com a cabeça do prefeito guilhotinada.


Transformada em bola de pelada pela turba igualitária.


O Brasil sonhado por poetas de quinta categoria.


Por políticos de plantão em São Januário.


Por técnicos que se elegeriam nas Touradas de Madri.


O Brasil já não existia.


Outro Brasil nascia.


Verde e amarelo.


Um Brasil de inesquecíveis vitórias e derrotas.


Um Brasil, entretanto, com a memória do luto.


A memória Rodrigueana de Hiroshima.


Um Brasil que reconheceu a vergonha da lona.


Muitos caluniaram este Brasil.


Seria uma terra de covardes.


Mulatos e sifilíticos craques sem pedigree.


Cachorros vira-latas.


Melhor seriam os ingleses.


Muito melhor os alemães.


Insuperáveis os norte-americanos que curtiam baseball.


Mal sabiam os sábios.


O Brasil não era Pedro I nem Pedro II.


O Brasil não era 1808.


O Brasil não era a elite do café com leite e açúcar.


O Brasil era a mão calejada das arquibancadas.


Do sonho desfeito numa tarde de domingo.


O Brasil era a lágrima do 16 de julho de 1950.


Reerguendo-se na segunda-feira silenciosa.


Mentem os livros de história.


Como sempre.


O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.


O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.


O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.


Às margens do Rio Maracanã.




NOTA DO BLOG: A crônica faz parte do livro 'No Blog do Juca Kfouri' e foi publicada no dia em que se completavam 60 anos da tragédia do Maracanã. Na imagem lá em cima, uma idéia que brotou nos dias posteriores ao Mracanazzo: um monumento em louvor do torcedor brasileiro, símbolo de paixão e civilidade diante do resultado adverso.


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