2 de jul. de 2012








Por BRUNO TOMAZ


O prestigioso campeonato de xadrez de Moscou era o meu objetivo. Os oito adversários exigiriam de mim uma preparação especial. Felizmente, o advento dos computadores facilitou o acesso a bancos de dados de jogos, reduzindo em muito o tempo necessário para estar perfeitamente em forma. Mais do que nunca, o cálculo tornou-se capacidade fundamental para o jogador.

E eu estava muito confiante. O xadrez pouco a pouco tornava-se minha segunda natureza. Calcular a resposta para os desafios impostos pelos adversários era como respirar. Um a um, venci todos os jogos que me foram apresentados.

Foi quando um senhor que não reconheci de imediato sentou-se do outro lado do tabuleiro. Ele era o meu último adversário. Sua aparência era de um senhor doente e cansado. Sua aparência era horrível. Apenas os seus olhos guardavam a chama que identifica e define algo como humano.

Logo nos primeiros movimentos me senti incomodado. O senhor era ágil. Seu jogo diferia de todos os outros: era espetacular, dramático, devotado ao ataque. Em pouco tempo, a cavalaria do velho doente ameaçava o meu rei.

O pandemônio se instaurou no salão. Eu, o campeão mundial, estava encurralado por um senhor de aparência horrível. Enquanto a platéia assistia vidrada, eu me sentia no paraíso. Era um enorme prazer analisar e calcular os desafios que o velho lançava. Ele chegou ao ponto de sacrificar a própria rainha e entrar em uma posição tão labiríntica que poucos ousariam, temendo não saber sair dela. Eu consegui repelir o ataque, mas o tempo no meu relógio se expirou. O senhor venceu. A razão é simples: enquanto eu calculo o xadrez, ele vê. Apesar da terrível aparência, sua visão era incrível. A forma de um jogador é passageira; sua classe, eterna.

Cumprimentei-o, agradecido pela partida. Foi quando eu o reconheci. Jamais esqueceria o toque daquela mão. Pois foram as mãos de Misha - que cumprimentei quando tinha apenas dez anos - que me mostraram pela primeira vez o que é o xadrez jogado por um grande mestre. Na época, derrotado por ele, senti ao mesmo tempo uma pressão esmagadora que me fazia querer ficar bem longe dali e um desejo de ficar para sempre junto daquele homem maravilhoso. Era Misha, o mago de Riga.

Chamei-o pelo nome. Cansado, ele disse "Obrigado." "Obrigado por quê?" Eu perguntei de volta. "Por me reconhecer"

PS: em 28 de junho completou-se 20 anos da morte de Mikhail Tal. Um mês antes de morrer de insuficiência renal, Tal fugiu do hospital onde estava internado para jogar o campeonato de xadrez em Moscou, onde venceu o campeão mundial da época, Garry Kasparov.


NOTA DO BLOG - na foto, Tal joga xadrez no hospital com Bobby Fischer

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