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21 de jun. de 2012
O TIRANO E O REI
Por ROBERTO VIEIRA
O aparelho era um discreto quarto de empregada na Conde da Boa Vista.
O único companheiro no pequeno espaço.
O radinho de pilha.
Não podia sair.
Não podia ver o sol.
Não podia beijar a namorada.
Não podia vibrar no gol nem nos sequestros.
O único gesto permitido era o grito de gol silencioso.
Gol de Rivelino.
Gol de Clodoaldo.
Gol de Jairzinho.
Pra p... que p.... com dialética.
Minha fácies cadavérica queria apenas um suspiro de arquibancada.
Eu queria o ópio.
O 21 de junho de 1970 foi assim uma espécie de adeus às armas.
A narração da bola de pé em pé.
A sensação de que a gente estava f.....
Noventa milhões em ação contra quinhentos malucos.
O chute de Carlos Alberto.
Abri a porta do quarto de empregada.
Molhei o rosto barbudo na pia da lavanderia.
Raspei a barba com a lâmina reservada para o suicídio.
Botei desodorante 1010.
E fui pra pracinha do Diário comemorar.
Me embriaguei de graça nas mesinhas do Savoy.
300 copos de chopp marxista.
De graça. Socialista.
Nem os soldados queriam saber quem eu era e de onde vinha.
Aproveitando a bobeira coletiva desapareci na madrugada de mim mesmo.
Dois dias depois, lá estava a foto do Tirano.
Taça na mão.
Sorriso amplo, geral e irrestrito.
E ao lado do Tirano, meus heróis do México.
Festejando a quermesse do Planalto.
Foi ali que sacudi fora meu radinho de pilha.
Peguei o velho trem atravessando o pantanal.
Rumo a Santa Cruz de La Sierra.
Mais um fugitivo da guerra...

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