3 de jun. de 2012



Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM



O Atlético Junior usa uma camisa alvirrubra. Faz lembrar o manto sagrado do Náutico, as listas brancas cortando o vermelho na vertical. O calção azul é que faz a diferença.

A foto do time, do início dos anos 50, publicada no blog a semana passada, em preto e branco, lembra o Botafogo do Rio. A presença de Heleno e Tim, juntos na mesma linha de ataque, também. Tinham jogado um ao lado do outro, Heleno e Tim, pouco tempo antes em 1947, no último ano de Heleno em General Severiano. Na fotografia, Heleno no comando do ataque, os braços esticados, as mãos sobre a bola em pose característica; Tim, o meia-esquerda ao seu lado. Vivem no momento a aventura da liga pirata da Colômbia, ambos em fim de carreira. Tim com a esperança de dias de glória depois da despedida, na ocasião iniciando como dublê de treinador, uma nova carreira na qual seria também um vitorioso. Heleno não, vive um outro momento. Caminha em direção à passagem estreita que o levará à camisa de força do América do Rio, última e única oportunidade de um dia pisar a grama do Maracanã. Outra chance não teria, a crueldade do destino já lhe indicava o caminho do isolamento inevitável em um sombrio sanatório perdido na distante Barbacena, bem perto de sua Nepomuceno onde nascera para ser craque de bola. E terminou sendo. Um dos maiores.

Foi Tim, uma das estrelas da mitológica seleção brasileira de 38, alguns anos mais velho que ele, quem levou Heleno ou, ao menos, quem iluminou a trilha que o levaria à aventura na Colômbia. Sabia o que estava fazendo. Heleno, ao seu lado dentro de campo, com seu futebol fulgurante, era a garantia de gols e a de cobrir de uma luz especial o time do Junior. Heleno na sua companhia, fora de campo, nas horas do recreio, que ninguém é de ferro, era a certeza de momentos de alegria. Tinha com quem cair na gandaia nas horas de folga. Na hora do peixe, que ele mesmo fazia no fogão, da praia, das noitadas.

O Atlético Junior Barranquilla, mais conhecido como Junior de Barranquilla, não era e nunca foi lá essas coisas. Ficou no tempo de Heleno, no 8º lugar na tábua de classificação. O campeão foi, ninguém sabe como, o inexpressivo Desportes Caldas (no futuro, pela fusão com um clube menor, conhecido por Once Caldas). O forte mesmo na época era Los Milionários, o chamado Ballet Azul, time que conseguiu a proeza de reunir a fina flor do futebol do continente, entre outros monstros sagrados os argentinos o goleiro Júlio Cozzi, Di Stéfano, Nestor Rossi, Perdenera, além do uruguaio, Raúl Pini, famoso zagueiro da seleção celeste. Os Milionários seriam campeões anos a fio a seguir, até chegar ao fim a aventura colombiana. Numa ida à Europa bateu o Real Madri no Bernabéu por 4x2 com dois gols de Di Stéfano. Foi quando os merengues resolveram fazer de Di Stéfano um dos seus. O resultado todos sabem.

Na foto publicada no Blog, além de Heleno e Tim, a presença de três outros brasileiros, todos eles botafoguenses: Ary, paranaense de Curitiba, campeão pelo Brasil na Copa Roca de 45, goleiro do Botafogo na década; também Marinho, futuro treinador campeão pelo Botafogo em 61-62, pai adotivo de Paulo César Caju; e Berrascochéa, uruguaio de nascimento, médio-volante de futebol elegante, do Expresso da Vitória, o Vasco da Gama dos anos 40, depois Fluminense, e que terminou um dia dando as caras em Caruaru, meados dos 60, contratado para treinar o Central. Outro brasileiro fazia parte do grupo, ausente na foto, também botafoguense (já que o Botafogo não dava certo aqui!), o zagueiro Gérson, do antológico trio final do time da Estrela Solitária: Ary (depois Osvaldo), Gerson e Santos.

A foto do Junior de Barranquilla, com Heleno e Tim na sua linha de ataque, é uma preciosidade histórica. De fazer inveja à sala dedicada a Gabriel García Márquez do Museu do Caribe de Barranquilla.


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