Por ROBERTO VIEIRA
Eram apenas pés, mas que pés eram aqueles!
Pés capazes de reescrever a história.

Uma, duas, milhares de vezes partindo em desabalada carreira pela extrema direita.
Céleres. Pés que comoviam e faziam rir os estádios mundo afora.
Pés de uma ingenuidade desconcertante.
Outros pés vinham e tentavam conter a corrida do homem da camisa sete.
Pés ortopedicamente perfeitos. Anatomicamente perfilados.
Em vão.
Eis que os pés desalinhados e improváveis tornavam a driblar o diagnóstico frio e cruel do subdesenvolvimento.
As quatro linhas do gramado eram sua casa, como as Minas Gerais eram a casa de Antônio Francisco Lisboa.
Dois aleijadinhos esculpindo o barroco nas artes e nos campos.
Dois aleijadinhos sublimes na humilde tarefa de enlevar o ser humano.
Quem sabe os pés e as pernas tortas de Garrincha não foram torneados pelas mãos deformadas do Aleijadinho?
Quem sabe Garrincha não era mais um profeta de Congonhas?
Disseram que os pés de Garrincha agora repousam na Calçada da Fama do Estádio Mário Filho.
Blasfêmia.
Os pés de Garrincha nunca abandonaram o Maracanã...

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