
Por ROBERTO VIEIRA
No princípio foram criados o céu e a terra.
A terra era sem forma e vazia. Não havia campos de futebol.
E criou-se o primeiro homem.
E disse o primeiro homem: Haja bola; E houve bola.
De meia, bexiga ou papel.
Viu o homem que a bola era boa.
No segundo dia, a bola caiu entre duas árvores da vida.
O homem gritou: ‘Gol’.
E viu o homem que o gol era bom.
No terceiro dia, o jogo foi ficando chato.
Macacos e tigres não sabiam jogar.
Das costelas do homem formou-se um time.
E viu o homem que o time era bom.
No quarto dia, o time procurou um adversário.
Porque jogar contra ninguém era muito chato.
A serpente falou que provando do fruto da árvore proibida.
Dava pra arranjar outro time.
Fora das fronteiras do Jardim do Éden.
O time inteiro provou da fruta.
E foi ganhar o sustento com o suor dos noventa minutos de bola rolando.
No quinto dia, a cobra virou cartola.
Botou todo mundo de contrato assinado e cabelo cortado.
O time achou melhor não abrir o bico.
Porque sem cartola a vida era difícil.
Como todo mundo estava sem camisa e envergonhado.
Criou-se o uniforme do patrocinador.
No sexto dia, um jogador tcheco* teve uma idéia.
Ajoelhou-se no campo quando fez um gol.
Agradecendo o milagre da multiplicação dos gols nas redes.
Sonhando em voltar ao paraíso perdido.
Para as peladas de infância.
Para o tempo das bolas de meia.
Mas era tarde demais.
* Ladislav Petras sempre foi um jogador extraordinário em meu imaginário. Ousar fazer o sinal da cruz em uma Copa do Mundo, simbolizando a resistência da Igreja e do povo tcheco, apenas dois anos depois da Primavera de Praga, foi antológico. Lamentavelmente, seu gesto de profunda significação foi banalizado nos anos que se seguiram... Na época, os jornalistas brasileiros cobrindo a Copa ficaram sem palavras. Não é que comunista sabia rezar!
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