2 de jan. de 2009




POR LUCÍDIO OLIVEIRA

Expectativa de muitos gols cercava o clássico à tarde na Jaqueira.

Nem tanto pelo que se tem presenciado nos últimos tempos, digamos nos últimos trinta, trinta e cinco anos, quando os times do Náutico e do Santa se enfrentam. Ainda está na lembrança do torcedor as decisões de 74, 89 e a de 93. Escores apertados, gols em cima da hora, resultado final indefinido até a última volta do ponteiro.

É que em futebol, emoção é sinônimo de gol. E Náutico x Santa Cruz não é o Clássico das Emoções? O que esperar senão gols, muitos gols, num jogo que conta com a participação de artilheiros como Bita, Nunes, Ramón, Jorge Mendonça, Luciano e Baiano, os mais destacados que já passaram pelos nossos gramados? E é porque, sem que se tenha uma justificativa plausível, não estavam participando do jogo Tará, Ivson, Fernando Santana, Betinho e Bizu.

Precisamente às 15 horas e 30 minutos, estavam os dois times perfilados no gramado, assim constituídos:

Náutico: Lula, Gena, Beliato, Fraga e Marinho Chagas; Salomão, Ivan Brondi, Salomão e Jorge Mendonça; Nado, Bita e Baiano. Técnico: Muricy Ramalho.



Santa Cruz: Detinho, Carlos Alberto Barbosa, Ricardo Rocha, Aldemar e Pedrinho; Givanildo, Zé do Carmo e Luciano Veloso; Mazinho, Ramón e Nunes. Técnico: Evaristo de Macedo.



O jogo, não poderia ser diferente, começou a todo vapor. Detinho e Lula tiveram logo de saída que mostrar todas as suas habilidades em defesas sensacionais. O escore, por isso mesmo, não demoraria em ser aberto. E foi o Náutico quem teve essa felicidade. Aos 12', Bita acertou de fora da área, pelo alto, um daqueles seus petardos que deram origem ao apelido. O Homem do Rifle. Um gol que fez lembrar um outro de sua autoria, um dos dois no empate em 2x2 contra o Vasco pela Taça Brasil de 1965. Ainda hoje Gainete, o goleiro vascaíno, não sabe por onde a bola entrou e só sabe que ela entrou porque viu, olhando para trás, a rede balançando.

Com o gol de Bita, a torcida alvirrubra na Jaqueira foi ao delírio. O segundo gol timbu era só uma questão de tempo. E o tempo foi generoso com os alvirrubros. Três minutos depois, numa troca de passes no melhor estilo argentino, no toco e me voy, quando já não se sabe naquele instante com quem está a bola, Salomão, Marinho, Jorge Mendonça e Baiano chegam juntos à porta do gol com ela dominada. O artilheiro Baiano só tem o trabalho de desviar do goleiro. Ele e Detinho, mais ninguém para atrapalhar. Uma ginga de corpo, a bola no canto, o goleiro no outro. Um golaço.

Goleada à vista já no primeiro tempo? Nem pensar. Do outro lado estava o Santa Cruz. E isso não quer dizer pouco. Num time que tem Luciano, Mazinho, Nunes e Ramón, tudo pode também acontecer em matéria de gol. E foi exatamente o que aconteceu aos 32'. Um passe milimétrico de Givanildo, a bola enfiada entre Beliato e Gena, vai encontrar Nunes livre de marcação. A arrancada em passos largos, o chute enviesado pelo alto de perna canhota. Quantos ele já não havia marcado assim? O gol faz renascer as esperanças tricolores.

E quando toda aquela gente, nas apinhadas e apertadas arquibancadas de madeira do velho campo da Jaqueira, pensava que o primeiro tempo ia acabar com a vantagem alvirrubra, por sinal merecida, veio o empate. Quem tem Luciano no time não pode se entregar antes do apito final. O lance desta vez acontece pelo lado direito do ataque tricolor. As subidas de Marinho... Mais ainda quando o momento é de empolgação e o time tem o domínio do jogo. Um vazio nas costas do Diabo Louro alvirrubro, a bola lançado por Luciano vai encontrar Mazinho, livre na entrada da área. Não restava outro recurso a Fraga. A falta era inevitável, mesmo com o risco do cartão, o que terminou ocorrendo.

Luciano, a bola e a barreira, Lula no gol. Parece até um hai-kai. Um cenário para filme de suspense, isto sim. Dali, é muito difícil Luciano errar. E o primeiro tempo termina assim, empatado. Dois gols para cada lado. Restavam apenas dois minutos para terminar a primeira fase. Com Luciano não se brinca.

O segundo tempo reservaria muito mais emoção ao torcedor.

O Náutico voltou disposto a logo tudo decidir. Muricy tinha conversado nos dias que antecederam ao clássico com Duque, Orlando Fantoni e Ênio Andrade. Tinha o time na mão. Conhecia um por um o jeito dos meninos jogarem E, ali mesmo à beira do gramado, na hora da laranja e do refrigerante - o campo da Jaqueira não tinha vestiário - mostrava aos seus pupilos que o time do Náutico era superior. Bastava um pouco mais de seriedade a Marinho. E mais empenho de Jorge Mendonça. Para que a vitória viesse, melhor era tratar logo de definir o placar.

Salomão e Ivan tomaram conta da meia-cancha. Os lançamento para Nado passaram a ser feitos com mais freqüência. O veterano Pedrinho, o lateral tricolor, não ia agüentar por muito tempo. As bolas chegavam ao ponteiro em triangulações pela direita, com Gena, Salomão e ele próprio, Nado, que se encarregava então, a partir da bola dominada, de levar a defesa coral ao desespero. Ademar, preocupado com Bita, e tinha ele lá suas razões, já não contava com o mesmo fôlego do início para o socorro ao seu companheiro da lateral-esquerda, alvo dos irresistíveis dribles de Nado.

E foi numa jogada assim, bem junto à linha lateral do campo, na altura da linha média, que começou a ser desenhado o terceiro gol alvirrubro. O relógio marcava 15' do tempo complementar. Uma sucessão de dribles é dado por Nado em Pedrinho, levando o defensor coral a recuar e permitir que a disputa agora estivesse acontecendo na zona perigosa da lateral da área. O centro partiu certeiro. A bola vai encontrar a cabeça do mano Bita, de frente para o gol, pela direita em cima da linha que demarca o limite da pequena área. A cabeçada é como se fosse um chute com o pé direito, o forte de Bita. Detinho estica-se todo e salta como um pássaro, tentando desviar a bola para escanteio. Já fizera isso inúmeras vezes. Naquele jogo mesmo e desde que chegara triunfalmente ao Arrruda.

Inútil é esforço do goleiro. A cabeçada tinha o endereço certo.

O jogo a partir daquele instante ficou ainda mais empolgante. Empolgante e nervoso. Mas não estava decidido. A diferença de apenas um gol é muito traiçoeira em futebol. E o que não faltou foi chance ao Santa para chegar ao empate. Com Ramón, duas vezes. Com Nunes, com Mazinho. Mas não é à-toa que Lula Monstrinho está se candidatando a ser daqui a pouco goleiro da Canarinha, uma das feras de Saldanha para as Eliminatórias da Copa de 70. O que Lula fez de defesa no jogo de ontem não está escrito. Só vendo para acreditar. Contando, parece milagre.

O jogo caminhava nesse ritmo alucinante. Vitória apertada do Náutico ou empate do Santa Cruz? Esse poderia, sim, acontecer a qualquer momento. Foi quando se deu o momento luminoso do 4º gol alvirrubro. Gol que definiu a partida. Jorge Mendonça foi o seu autor. E somente ele era capaz de um gol assim. O lance é de fácil descrição. Marinho em arrancada fulminante pela esquerda, puxa o contra-ataque alvirrubro. Ao se aproximar da área, sai da perna direita do potiguar um venenoso torpedo com direção certa. O milagreiro Detinho porém consegue com as pontas dos dedos desviar a bola para escanteio. O esquinado é batido por Nado, na medida. O centro preciso pelo alto. Sobem vários jogadores. A bola sobra para Jorge Mendonça. Muita gente à sua frente. Uma floresta de pernas e chuteiras. Mas ali naquele exíguo condomínio povoado por zagueiros vigorosos e volantes aguerridos, só Jorge Mendonça vê o que ele vê. O espaço é mínimo, exige lucidez. A jogada é então realizada como se uma fotografia tivesse sido tirada antes. A bola é tocada de bico e sai fazendo uma incrível curva. Passa por cima da cabeça do gigante Ricardo Rocha (como joga, esse cara!), que não consegue desviá-la. Era o único caminho possível para chegar ao fundo da meta. Detinho, estático, assiste a parábola desenhada pela trajetória da bola. E nada pode fazer. O jogo estava definido, até porque já são jogados 42' do tempo final. É só esperar o tempo correr.

Bita porém não está satisfeito. Quer mais. A torcida também. E o 5º gol acontece nos descontos, aos 47 minutos. É o último lance do jogo. Um belo gol, de voleio, aparando Bita uma bola lançada com maestria pelo alto por Salomão.

Todos no Náutico jogaram bem. O dono do jogo porém foi Ivan Brondi. Um futebol que não aparece, discreto. De uma eficiência porém a toda prova. Não perdeu uma dividida. Não errou um passe. A Muricy, igualmente, os loiros da vitória. Ganhou também de goleada de Evaristo de Macedo. É no meio do campo que o jogo acontece. E ali a disputa foi desigual, com o exuberante futebol de Salomão, Ivan, Jorge Mendonça e, não dando bolas para sua obrigação primeira de cuidar do ponta adversário, de Marinho e seu futebol dez anos na frente dos outros. Muricy explorou muito bem o que tinha em mãos. Tinha os melhores e soube distribui-los com inteligência para uma melhor ocupação da meia-cancha.

Do lado de fora do campo, festejado pela torcida pelos três gols marcados, Bita lembrava aos repórteres os bons tempos do Hexa. Mais precisamente 1964. Com aqueles mesmo números, 5x2 no placar, tinha saído do campo igualmente festejado pela torcida timbu em duas oportunidades. Em jogo contra esse mesmo Santa Cruz, nos Aflitos, e um mês depois contra o maior rival, o Sport.

O mediador da partida foi o senhor Sebastião Rufino, árbitro da Fifa. Uma atuação correta. A sua indicação tinha sido recebida com serenidade e confiança por ambas as torcidas e dirigentes dos dois clubes. O Santa Cruz estava acostumado a ser campeão com Rufino no apito. Tinha sido assim em 70, 71 e 72, na jornada do penta. E seria assim também no bicampeonato do final da década, em 78-79. Não tinha do que reclamar. Quanto ao Náutico, o raciocínio era cristalino: tudo de mal que o nosso juiz nº 1 poderia fazer contra o clube, os equívocos, os erros e as omissões, tudo que tem direito um árbitro de futebol numa partida contra um só time, já havia ocorrido em 1975, na nefasta decisão contra o Sport. Outra não era possível. E, superstição à parte, o Náutico também já tinha sido campeão mais de um vez com Rufino



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