Por ROBERTO VIEIRA
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Hoje?
Itália toda na defesa.
Budapeste.
Puskas domina com a canhota. Dispara: Gol!
Não lembro quantos gols vi de Puskas.
Mas daquele eu lembro. 17 de novembro. 1955.
A Hungria venceu a seleção italiana por 2 x 0.
A gente não era campeão do mundo, mas a gente era o país do futebol.
Futebol nos domingos e algumas doses na cabeça.
Dava até pra esquecer aqueles malditos soviéticos e seus empregados húngaros.
Aquele gol marcou a minha vida de porteiro do Nepstadium.
Aquele foi o último gol de Puskas pela Hungria em Budapeste.
Não foi um gol inesquecível pela beleza. Foi apenas o seu último gol.
Como o último gol de Pelé pela seleção.
Imaginem um Pelé morto um ano depois.
Pois foi assim.
Em julho de 56, o Major ainda jogou em Budapeste.
Uma Budapeste em festa, feliz, sonhando com a liberdade.
Mas não marcou nenhum gol.
A gente meteu uns quatro gols na Polônia e foi tudo.
4 de novembro de 1956.
Tanques russos invadindo a cidade. Milhares de mortos.
Dias cinzentos de bombas e fuzilamentos.
A notícia do fuzilamento do Major.
O Major morreu...
Todos nós baixamos as armas.
Eles tinham aniquilado algo maior dentro de nós mesmos.
Nosso coração.
Quando estava na prisão pensei em me matar.
Quando estava pra cumprir o ritual final, alguém me sussurou no ouvido:
"O Major vive!"
O Major havia escapado da corte marcial.
Dos imortais, ficaram apenas Bozsik e Grosics.
Maldito deputado Bozsik!
Canalha vermelho!
Vivi.
Fui solto. Farrapo de gente. Quase cego. Quase louco.
Habitante de um mundo onde vagavam milhares como eu, testemunhas dos bons tratos comunistas.
Velhos camaradas do meu povo!
Não prestava pra mais nada.
Só como exemplo do que poderia acontecer nos calabouços do Estado.
Um dia, o comunismo morreu.
E cinquenta anos depois o Major voltou a viver entre nós.
Alzheimer.
Eu estava do jeito que me deixaram em 1956. Vivia.
Não quis nunca me encontrar com o Major.
As lembranças são cristais.
Pra que arriscar?
No dia 4 de novembro de 2006, levei flores para os túmulos dos amigos mortos no levante.
Duas semanas depois me chamaram no asilo:
"O Major morreu!"
O calendário marcava 17 de novembro de 2006.
O mesmo dia do último gol de Puskas pela seleção Magiar.
O mesmo dia em que o futebol morreu em Budapeste...
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