O conto abaixo não é sobre futebol.
O conto abaixo é sobre uma menina.
Uma menina nascida na prisão no dia 27 de novembro de 1936.
Uma menina nascida em uma prisão da Gestapo.
Mas o conto não é sobre política.
O conto é sobre o sorriso de uma menina...
O conto abaixo é sobre uma menina.
Uma menina nascida na prisão no dia 27 de novembro de 1936.
Uma menina nascida em uma prisão da Gestapo.
Mas o conto não é sobre política.
O conto é sobre o sorriso de uma menina...
[IMAGEM]
Anita em Recife, 1945
Por ROBERTO VIEIRA
Recife, outubro de 1945
Enquanto eu olhava sua foto no jornal de hoje, lembrei que foi seu o único sorriso do número 15 da Barnimstrasse. Em um tempo sem cavaleiros, sem esperança, sem heróis, logo você veio ao mundo envolta em mantas. Berlim. Frio. Madrugada nazista. Meu professor de história vivia falando em ariosofia. A nova ordem entre nós ganhou o nome de Estado-Novo, embora tudo pareça antigo.
Mas o que eu queria dizer é que a fotografia que eu vejo agora não traz um sorriso. Apenas um olhar distante, indiferente ao mundo, este universo confuso que quase não te viu nascer.
Será que te tratam como um Messias?
O que pensam teus olhos que eram tão alegres? Você não lembra como os teus sorrisos faziam tua mãe esquecer tudo que havia de ruim neste mundo? Ou você sorria, pois não tinha conhecido a tristeza?
Himmler morreu. Cianeto. O filho de um professor católico viveu como Herodes. Sonhou matar todos os filhos de judeus. Mas esqueceu de um (a). Tal qual Herodes. A vida insiste em subverter as ditaduras mais cruéis. Sorte a nossa!
Os coturnos nazistas já não se ouvem nas ruas. Todos hoje se dizem democratas. Porém, receio que outros coturnos virão. A humanidade não consegue acostumar-se com a paz. Agora mesmo as aranhas tecem uma cortina na Berlim onde você nasceu. Uma cortina separando pais e filhos. Como aquela te separando dos teus pais.
Existem muitas Gestapos e Filintos neste mundo, menina.
Entretanto, ia me esquecendo. Por que este rosto tão sério, esses olhos distantes? Pelo que pude ler você foi recebida, aqui no Recife na sede do Partido Comunista na Rua Imperial, junto com sua tia Lígia. Saiba que até o Jornal Pequeno que vive criticando seu pai e Getulio, foi gentil com você. Neste tempo de ódio em que vivemos, eu te garanto que isso não é um fato qualquer.
Mas talvez seja isso que perturba teu sorriso. Ver o teu pai junto do homem que mandou sua mãe para o Gólgota. Talvez você imaginasse que ele iria dar uns bons sopapos no velhinho. Já não se fazem gaúchos como antigamente, guria!
Assim é a Realpolitik! Mas crianças não entendem o mundo dos adultos. Por mais que os adultos expliquem. Não, não me julgue mal. É o que eu mais gosto nas crianças. Se pudesse ainda seria uma delas. Quem sabe até você gostaria de ser como elas. Correr, pular, dançar, sem ter de decorar os versos da Internacional Socialista. Realpolitik também não é o meu forte. Nisso somos parecidos. Só que um dia você vai crescer. Vai se tornar uma adulta como eles. Quem sabe até irá defender os pontos de vista dos adultos. Não importa. A única coisa que me importa agora é o mistério do teu sorriso. Ou da falta de qualquer sorriso.
E se eu estiver errado, Anita? Quem sabe teus olhos apenas lembrem uma antiga canção de ninar que tua avó cantava pra te fazer dormir? Quem sabe a saudade da tua mãe e da tua avó que partiram não te faça imaginar que viver é partir?
Caso um dia você venha a ler minhas palavras, espero que guarde uma frase que uma amiga minha judia, Clarice, vivia repetindo aqui em Recife. Lembrei de Clarice porque ela perdeu a mãe com a idade que você tem agora:
“A gente pensa que o dez é o fim do nove, não é ? Mas já é o princípio do onze.”
Anita Prestes visitou a sede do PCB no Recife em 1945 . Seu olhar distante apareceu numa foto dos jornais da época.
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