Por ROBERTO VIEIRA
Abraão era um fanático por futebol. E como sói acontecer a todos os fanáticos, Abraão sabia de tudo.
Abraão vivia proclamando aos céus que tudo estava errado sob o céu. Caso tivesse o poder, Abraão prometia fazer as coisas certas, transformando o mundo em um paraíso.
Cansado do lenga-lenga de Abraão, o Senhor de Todas as Coisas decidiu lhe conceder 24 horas para organizar o mundo do futebol. E foi curtir um merecido descanso.
Abraão quando se viu sozinho, sorriu. Aquele sorriso breve e sórdido dos fascistas de plantão. E pôs mãos a obra.
Primeiro, Abraão silenciou os jornalistas que criticavam seu time. Morte súbita. Empastelou redações e apagou blogs. Como os poucos jornalistas remanescentes reclamaram muito, dinamitou eles também. Em seguida, afogou na baía da Guanabara as torcidas dos grandes times rivais. Por via das dúvidas, afogou também os torcedores que restavam do Bangu.
Ainda era pouco, pensou. Meia-hora depois, radicalizou. Incinerou as sedes dos clubes também. A Cidade Maravilhosa agora era a cidade de um time só.
Como o Rio de Janeiro andava na contra-mão de São Paulo, Abraão bateu palmas e o futebol foi extinto em São Paulo. No Museu do Futebol ficaram apenas as fotografias dos antigos craques do seu time. Como aliás deveria ser desde o início, segundo o pensamento do próprio Abraão.
Mas, e os gaúchos, os mineiros, os paranaenses?
Tchau gaúchos, mineiros e paranaenses!
Tchau pra todo mundo também. Abraão acabou com todos os clubes do Brasil, independente de raça, cor, credo ou torcida organizada. Até mesmo com o velho pássaro preto, o Íbis. Vai que ele dá uma de Davi...
Abraão olhou para os campos de futebol e viu que sua obra estava quase completa. Então, Abraão se auto-proclamou presidente vitalício do seu querido time. Foi quando algumas facções organizadas se rebelaram, e Abraão teve de expurgar sua própria torcida por via das dúvidas. Quando seus dois irmãos reclamaram, Abraão achou por bem cortar o mal pela raiz. Mandou os irmãos pros quintos dos infernos.
Abraão modificou até as cores da bandeira do seu time, mas não havia mais time para torcer. Abraão também havia demitido o treinador incompetente, a comissão técnica que custava uma fortuna aos cofres do clube e todos os jogadores que não honravam as gloriosas cores da sua equipe. Uns verdadeiros sanguessugas.
Agora, havia apenas Abraão e uma bola de futebol no Maracanã vazio. E pela lógica de Abraão, o mundo era muito sem graça pois já não havia outros torcedores para esmurrar, xingar e arremessar coquetéis molotov.
Para alegria de Abraão, logo chegou o fim do seu mandato e o Senhor de Todas as Coisas retornou, devolvendo o futebol ao mundo de Abraão.
Porque Abraão era um fanático por futebol. E como sói acontecer com todo e qualquer fanático, Abraão não sabia de nada...
*Dedicado ao Paulinho e ao seu blog. Uma das vítimas de Abraão...
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