2 de set. de 2008





Por ROBERTO VIEIRA


Prezado Juca,

Somos de um tempo diferente. Épocas diversas.

Você é uma maravilha na palavra escrita, eu era com uma bola nos pés. Pelo menos é o que diziam os torcedores e os cronistas de um tempo em preto e branco.

Pois meu caro Juca, eu fui craque. Com direito a manchetes, tapinhas nas costas, mulheres e títulos.

Eu fui bedel e era também juiz, como dizia aquele compositor que me colocou no time de botão. O Francisco.

A bola me tratava como filha obediente, amada. Onde eu ia ele vinha atrás.

No Rio de Janeiro ou na Espanha. Espanha onde fui endeusado e depois enjaulado e exposto em gaiola dourada para visitação e escárnio público.

Um negro perdido nos tempos da falange e dos republicanos em gestação.

Um negro namorando uma catalã? Pecado mortal.

Mas um pecado desculpável enquanto eu fizesse o Barcelona vencedor.

Mas eu era craque, mas não era o Rei. Eu era apenas um moleque de Codó no Maranhão, tinha apenas um coração, e não três.

Um pobre perdido nas ramblas do planeta.

Portanto, meu caro Juca, sou suspeito pra comentar os atos do Robinho.

Entendo que a vida é feita de direitos e deveres. A irmã Catarina me ensinou isso aqui no sanatório.

Mas sempre que a febre me chega, sempre que a lembrança dos improprérios em São Januário, na Catalunha ou na Gávea me visitam.

Sempre que essa sensação de impotência frente a vida que se esvai me oprime em um soluço de sangue.

Eu não posso deixar de sentir uma suave vingança no adeus de Robinho aos dirigentes madrilenhos.

Prezado Juca, perdôe esse sentimento em um velho jogador preso a uma cama na distante Minas Gerais.

Desculpe irmã Catarina, que tanto se preocupa com minha alma de boleiro.

Mas toda noite eu fico me repetindo depois que apagam as velas e os candeeiros. Quando a morte me espreita as lembranças:

Valeu, Robinho!

Um grande abraço,

Fausto dos Santos



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