16 de set. de 2008



Por ROBERTO VIEIRA

O Clube Náutico nasceu aristocrático. Herdeiro da elite pernambucana. Seguiu aristocrático durante 60 anos de história. Até o advento de Gentil Cardoso e José Porfírio.

O que foi orgulho nos Aflitos, era fronteira na vida real. Pois o futebol brasileiro deve sua força exatamente ao ecumenismo. Ao sincretismo do mundo da bola. Muitos que admiravam o futebol de Ivson e Ivanildo, de Fernando Carvalheira e Celso, não podiam transpor as portas do clube. Passavam a torcer pelos seus rivais no Velho Testamento.

O Santa Cruz se tornou o clube das multidões de descamisados em nossa capital. O clube dos brancos, negros, mamelucos, cafuzos, mendigos e excluídos.

O Sport tornou-se o time da outra metade da elite pernambucana. Assumiu o profissionalismo ainda nos tempos do amadorismo. Sua visão de sociedade era mais adiantada que a do Náutico. Adaptou-se ainda a tempo.

Mas que preconceito pode resistir ao futebol de Nado, Bita, Lala e Ivan? Nem mesmo o sangue azul das Laranjeiras quando viu Didi meter um gol de folha seca. O futebol alvirrubro subverteu o orgulho. Subversão em pleno periodo autoritário.

O Náutico tornou-se um clube com sementes populares. Sementes que germinaram.

O Clube Náutico deve seguir seu destino. Ser um clube de massa.

Sei que alguns vão se arrepiar com este conceito. Preferem a intelectualidade. O rapé. Mas o tempo da árvore genealógica acabou. Acabou o poder do sobrenome. Chegou o tempo do Novo Testamento. O tempo dos gentios.

Com sete décadas de atraso, devemos seguir o exemplo do genial presidente do Flamengo José Bastos Padilha. O homem que compreendeu que um clube de futebol não é lugar de almofadinhas. Futebol é coisa pra craque e apaixonado.

(Padilha que contratou Leônidas, Fausto e Domingos da Guia, fazendo enfim jus às cores da sua camisa).

O Náutico deve visitar as cidades do interior em amistosos. Levar seus ídolos ao encontro do povo que só vê futebol paulista pelas parabólicas.

O Náutico deve valorizar o trabalho que já iniciou em escolinhas nas periferias do Nordeste. Deve trazer a juventude para suas linhas. O futuro deve ser alvirrubro.

Para os que duvidam dos novos tempos, uma imagem.

Passando hoje pelo viaduto da avenida Norte.

Numa favela que existe nas proximidades do Torreão. Uma bandeira.

Solitária.

Bravia.

Singular.

Uma bandeira impensável no passado.

Uma bandeira de quem ama o Náutico na pobreza.

Uma bandeira tremulando ao vento que foge do Atlântico.

Nada mais é preciso responder.

Uma bandeira vale mais do que mil palavras!


Categories:

0 comentários:

Postar um comentário

Comentários