22 de ago. de 2008



Por ROBERTO VIEIRA

Duque sempre foi um cachorro abestalhado. Latia quando devia ficar quieto e ficava quieto na hora de latir. Mas sua alegria quando me via chegar no final de semana, era a alegria mais pura e inocente que eu já vi em minha vida. Eu ainda era um pirralho e Duque um senhor de passada idade. Nos conhecemos no outono de sua vida, quando seus movimentos já não eram tão rápidos. Mas, como eu dizia, Duque era um senhor completamente abestalhado. Ou um cão, como acharem melhor.

Era branco e marrom, de um marrom indefinido e talvez grisalho. Um marrom que se misturava com a terra de Limoeiro, com a falta de banho, com as corridas atrás do nada no capinzal. Quando via papai, Duque se calava. Quando me via, virava palhaço.

Foi o primeiro grande amigo que eu tive. O mais sincero. O mais fiel. A gente conversava sobre viagens fantásticas, heróis imaginários, e eu sempre me surpreendia com ele. Ele acreditava em tudo o que eu dizia. Como um pé de laranja lima de quatro patas. Muitas vezes eu acordava com Duque na porta do quarto implorando abrigo. A chuva lá fora e os trovões faziam o velho cão tremer. E lá ia eu esconder Duque embaixo da minha cama. Pra só eu e Deus saber.

Algumas vezes, Duque me via triste depois de ouvir um jogo no rádio. E com o tempo ele aprendeu que quando o Náutico levava um gol eu ficava triste. E ele deu de ficar calado nesses momentos. Como se entendesse meu pequeno drama. Quem olhasse de longe não entendia, o menino e sua companhia em ritual de religiosidade. Pedindo aos céus um gol. Claro que Duque não rezava. Mas eu rezava por nós dois. E depois, Deus haveria de ouvir a prece de dois inocentes.

Parece que não. O Náutico continuou perdendo.

Éramos assim, menino e cachorro naquele tempo de pouca gente e terras sem fim. Dias em que tinha jogo todo domingo em Limoeiro no pátio da igreja. Tempos em que eu voltava dormindo de noite na caminhonete para o colégio na segunda-feira.

Juntos nós assistimos o Brasil campeão da Minicopa, a derrota na Copa de 74 e os oito gols de Jorge Mendonça pela ondas da AM.

Até que um dia, eu fui levado pra longe de Duque. Lágrimas nos olhos. E ele ficou olhando pra dentro do carro, sem entender bem pra onde ia aquele garoto que vivia correndo atrás de uma bola.

Um mês depois me contaram que Duque havia fugido do novo dono da granja.

Contaram que tinha sido atropelado na pista. Tinha que ser. Duque era mesmo um cachorro pra lá de abestalhado.

Chorei. Dormi. Tornei a chorar. Por tantos dias e noites que perdi a conta.

Até que um dia, acordei. Adulto.


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