21 de jul. de 2008




Por ROBERTO VIEIRA

Das arquibancadas dos Aflitos, quatro décadas contemplam o hexacampeonato de 1968. Uma legião de jovens alvirrubros, entretanto, não era sequer nascida quando Ramos completou o cruzamento de Rato naquele 21 de julho. O que até hoje foi motivo de orgulho para o Clube Náutico Capibaribe, transformou-se nos últimos tempos em motivo de dúvida e apreensão diante da carência de novos títulos.

Afinal, qual será o futuro do hexa?

Dizia o escritor Eduardo Galeano que "o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável".

O hexacampeonato timbu na década de 60 permanece um produto de marketing. Porém, novas conquistas dos rivais tornam tal produto um artefato doméstico frente ao esporte globalizado. Novas gerações anseiam por títulos high-tech, universalizados, multinacionais.

O que preserva a grandeza do hexa é sua origem no tempo e no espaço. A década de 60, com Rolling Stones e JFK. Golpe militar e hippies. Maio francês e Vietnã.

A história envolve Bita e seus companheiros em uma aura mística, de arte e rebeldia. Como os Beatles, invadindo a Inglaterra pelo improvável norte, o Náutico ousou desafiar anos a fio os grandes times do Sudeste. Scouse e guitarra de Lennon soando tão exóticos quanto o drible e sotaque de Nado.

Quarenta anos depois, o futuro do hexa repousa entre duas grandes áreas: uma concreta, a outra abstrata.

Superar a utopia de uma equipe desafiando desigualdades regionais de forma perene exige recursos econômicos. O futebol pernambucano necessita de refinarias e siderúrgicas. Estaleiros e educação. Acúmulo de capitais e pleno emprego. Um choque gerencial. Mas apenas isso não basta, ou não estaríamos falando de futebol. Negócio e paixão.

O hexa não foi obra do acaso. O hexa germinou por mais de uma década, na revolução silenciosa dos Aflitos iniciada no título pernambucano de 1950. Ao contrário do que supõe nossa vã filosofia clubística, uma grande equipe é o resultado de 99% de suor e 1% de imaginação.

O futuro do hexa depende da capacidade e da coragem dos dirigentes e torcedores alvirrubros. Capacidade de planejar o sonho e o salto de qualidade. Coragem de desafiar o passado. Acima das vaidades pessoais.

Como novos Eládios na construção de um novo testamento na história do futebol pernambucano e nacional.

Quatro décadas depois, o Náutico contempla o seu destino. O legado do hexa conduziu o alvirrubro pernambucano por entre as intempéries do deserto. Como Torá de chuteiras. Evitando a diáspora.

Chegou o momento de um novo tempo em Rosa e Silva.

Um tempo de honrar o presente da forma que nos foi ensinada pelos craques do passado.

Publicado hoje no Jornal do Commercio



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