3 de jun. de 2008





Por ROBERTO VIEIRA



As Cruzadas pretendiam erradicar do mundo os infiéis. Tornar a todos, iguais.

Agora uma nova cruzada se ergue contra os infiéis.

Desta vez uma cruzada esportiva destinada a erradicar da face da terra o Estádio dos Aflitos e o Clube Náutico Capibaribe da primeira divisão.

O estádio e o clube representam o desconhecido. Representam o mal. Representam o primitivo frente a civilização redentora do restante do país.

Os Aflitos são o Canudos da vez.

Ergam-se então os canhões da honestidade, da honradez, do primeiro mundo.

Mandem para a terceira divisão os famigerados alvirrubros!

Proclamem a vitória contra os bárbaros habitantes do Norte.

A torcida Timbu já está cansada de cruzadas, de sertões, de Auschwitz.

De que vale mencionar duzentas vezes os argumentos do bom senso, as provas do delito, a defesa do justo, se os ouvidos do mais forte são surdos?

De que adianta mencionar os inúmeros antecedentes dos que acusam se a sentença já foi traçada na surdina dos palácios?

Os Aflitos são o Canudos da vez.

Nosso pequeno estádio é o preço que pagamos por ousar vencer os Botafogos da vida.

Mas fiquem certos de uma verdade: Canudos jamais se rendeu.

Lutou até o último suspiro em defesa da sua existência. Pois o que resta ao retirante senão a luta?

Talvez a palavra. Pois como escreveu Euclides da Cunha no final de 'Os Sertões':

'Vemos o quanto é forte esta alavanca – a palavra – que levanta sociedades inteiras, derriba tiranias seculares...'

Resta então a palavra ao retirante. Esta estranha senhora que transformou Canudos em símbolo.

A palavra que ousa transformar em mar o sertão do nosso grito de gol...



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