16 de jun. de 2008








Foto Mohammed Nur**









Por ROBERTO VIEIRA

Nasceram na mesma noite sem estrelas. Do mesmo pai. De mães diferentes. Na mesma comunidade do Pinel.

Quando nasceram, pai não tinham. Tinha partido pra bem longe dali, pelo menos é o que suas mães diziam.

Foram criados como irmãos. E na verdade, eram irmãos. Irmãos no sangue, diferentes na cor. Batizados num dia de jogo de Copa do Mundo: Juan e Lúcio.

Com o passar dos anos foram jogando bola. Na idade em que toda criança da comunidade se misturava com o tráfico de drogas e de armas, eles jogavam bola. Na defesa do Arsenal do Pinel. Um time com as cores do Flamengo e o uniforme do Vasco da Gama. Uniforme cedido gentilmente por Seu Joaquim. Ora, pois pois.

Um olheiro de olhos sombrios veio ver jogar os irmãos de sangue. Gostou do que viu. Juan era calmo, filosófico nas suas intervenções com a pelota. Lúcio era abastado, só vontade e força. Difícil escolher o melhor. Impossível não escalar os dois. E lá se foram eles com as primeiras chuteiras pro terreno de grama rara e esparsa do Mulambinho, o time mais forte do Pinel. Lúcio salvou uma bola quase dentro do gol. Mas Juan fez o impensável. Parou com um drible de corpo o Menelau, craque e instituição do Pinel. Menelau partiu pela direita e Juan fez que ia e não foi. Quando Menelau pensou que estava livre com a bola diante do gol, Juan já esticava a pelota para o ataque e sorria para o irmão.

Menelau não se fez de rogado. Sacou um berro de dentro do calção de jogo, encostou na cabeça de Juan e disparou. Como quem faz um gol. Uma, duas, três vezes.

As balas penetraram a defesa de Juan em movimentos retilineos. Juan tombou na grama rara e esparsa do campo do Mulambinho. Já sem vida. Já sem drible de corpo. Sem sorrisos. Quando Lúcio gritou, já era tarde. Dois malandros chegaram junto dele e avisaram que o caso era com Menelau e Juan. Lúcio era um grosso como eles, um perna-de-pau. E Lúcio ficou sozinho no campo naquele final de tarde, com a bola e o corpo de Juan a seus pés onde repousavam as chuteiras emprestadas pelo olheiro.

De repente, o futebol perdia a cor. O céu voltava a anoitecer sem estrelas. Lúcio carregou o corpo do seu irmão para casa, para os olhos da mãe de Juan. Olhar de mãe precisa enxergar a morte para acreditar no fim.

Lúcio foi na gaveta da penteadeira. Pegou uma peixeira e caminhou vazio, ele e a arma na direção do assassino do seu irmão. Quando encontrou Menelau na venda de Cosme e Damião, Lúcio não hesitou no golpe, como não hesitava nos carrinhos e cotoveladas das peladas.

Onze foram os golpes. Onze os furos na contagem dos médicos do instituto de medicina legal. Onze a vingança de Lúcio.

No domingo, Lúcio vestiu a camisa do Mulambinho. Com a braçadeira de capitão.

O morro fez um minuto de silêncio pela morte do seu irmão.

** Foto da Favela Mathare no Quênia

www.jpgmag.com/photos/263050



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