4 de dez. de 2015



Uma das maiores qualidades de um livro é a metamorfose. A capacidade de nos envolver em suas páginas e nos devolver modificados, dotados de uma nova visão do mundo ao nosso redor.
Eu estava lendo o artigo BRAIN POWER de Arthur B. Cummings, editor chefe da revista Cataract and Refractive Surgery Today. O breve editorial comentava sobre a perspectiva sombria dos oftalmologistas em relação à ambliopia - perda visual na qual o cérebro não desenvolve a capacidade de processar as informações visuais em um dos olhos. Afinal de contas, cuidamos dos olhos mas o grande responsável pela visão é o cérebro.
Os livros ensinam que se a conexão olho-cérebro não é ativada adequadamente até os 8/9 anos, a ambliopia se instala definitivamente. Um dos olhos se torna 'preguiçoso'. Este olho não pode mais ser recuperado.
Mas qualquer oftalmologista acaba descobrindo que não é bem assim. Pacientes acima desta idade ainda podem obter ganho visual se devidamente estimulados. A prática sempre venceu as teorias nestes casos.
E o nome desta janela de oportunidades para a visão tem nome: NEUROPLASTICIDADE. O nosso cérebro tido por muitos anos como imutável, na verdade é plástico. O cérebro se adapta darwinianamente.
E toda essa descoberta pode ser acompanhada no livro O CÉREBRO QUE SE TRANSFORMA. Um livro simplesmente excepcional. Livro que é citado por Cummings ao final de seu editorial.
Comprei o livro do psicanalista e pesquisador NORMAN DOIDGE e mergulhei na saga de cientistas que navegam nas águas do futuro. Paul Bach-y-Rita, Barbara Arrowsmith Young, Michael Merzenich, Edward Taub, Eric Kandel, entre outros. Ganhadores do Prêmio Nobel e muitas vezes esculachados pela comunidade científica por remarem na direção oposta aos 'pilares da ciência'. Nomes que reconstruíram a neurologia. Nomes que deram esperança a milhares de doentes desenganados pelo mundo afora.
O livro que desafia o 'niilismo neurológico' que dominou a nossa concepção de cérebro no século XX é uma vitória do ser humano. Uma vitória sobre as trevas e sobre os derrames cerebrais e membros fantasmas. Uma vitória do poder que tem a mente humana - cérebro - sobre a realidade mórbida.
Escrito em linguagem técnica, porém romanceada, espetacular em suas afirmações que negam muitos de nossos sensos comuns, O CÉREBRO QUE SE TRANSFORMA nos dá imensas e preciosas lições inclusive sobre o amor. A importância da dopamina e da ocitocina em nossos relacionamentos nos levam a descobrir quimicamente que o novo sempre vem, mas que o antigo pode rejuvenescer. A ocitocina que é liberada quando os amantes fazem amor e que serve para reforçar os laços entre os mamíferos.
Entre tantas informações de um clássico da literatura científica, consta também a quase-poética descoberta de Walter J. Freeman, professor de neurociência em Berkeley. O amor está intimamente ligado ao desaprendizado maciço.
A reorganização neuronal maciça ocorre em duas fases da vida: quando nos apaixonamos e quando começamos a criar os filhos.
Para amarmos e para voltarmos a amar é preciso desaprender muito daquilo que nosso cérebro tomava por verdades. Como uma viúva que precisa desaprender o passado e superar seu luto para voltar a amar.
Como se mergulhássemos nossa mente no laboratório de V. S. Ramachandran e descobríssemos que toda dor é ilusão. Um dos conceitos mais surpreendentes e perturbadores deste cientista indiano que venceu o fantasma da dor com elegância e simplicidade...
Para todos nós jovens e nem tão jovens, o livro é uma lição de vida. Uma lição sobre a necessidade fundamental de exercitarmos nosso cérebro até o final de nossos dias.
Porque se existe uma fonte da juventude nesse mundo, ela está nesse espetacular cérebro que nos habita e que nunca para de se transformar...


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