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24 de jul. de 2012








A matéria estava assim.

Pequena.

Encaixadinha num canto do jornal.

Mas as sobrancelhas eram indisfarçáveis.

Era Ele.

Monteiro Lobato, ou melhor,

José Bento.

O que seria eu sem Zé Bento?

Urupês.

Monteiro Lobato foi a luz da minha infância de apartamento.

A luz dos tempos de filho único.

A centelha sonhadora naquele tempo de tardes vazias.

Com ele aprendi a viajar.

Aprendi que existiam sítios e pica paus.

Qualquer 'obrigado' seria discreto.

A dívida é imensa.

E mesmo assim, tenho certeza.

Que apenas a certeza do carinho que aprendi a sentir pelos livros em seus livros.

Já o deixaria feliz...

4 de jul. de 2012







Querido José Bento,

Envio estas mal traçadas linhas para teu cativeiro. 

Tenho certeza de que um mundão de crianças lá fora espera por tua saída.

Disseram-me que ao proferir repetidas vezes as palavras em latim acima.

Injuriastes aos Poderes Públicos.

 Em outra carta ao General Góis Monteiro, parece que tu chamas o nobre presidente de 'displicente' .

Deveras, José?

E onde se viu chamar um presidente de displicente, quando eles tão profissionalmente dilapidam o patrimônio nacional?

Logo tu que usas tão magistralmente da palavra!

Ainda por cima chamaste de 'ingênuo' ao Conselho Nacional de Petróleo!

Agora que por quase um mês dormes nesta cela, escrevo para dizer que Dr.Getúlio decidiu te perdoar e terás liberdade. 

Cria juízo e volta cá para o Sítio . 

Pedrinho e Narizinho não aguentam mais de saudade. 

Nastácia está a preparar aqueles bolinhos de que tanto gostas.

Emília anda muda desde que te emudeceram.

Volta logo, que o teu lugar é neste Sítio. 

Deixa o petróleo e a política para a gente grande.

Um abraço,

Sítio do Pica-Pau Amarelo , 19 de junho de 1941

Dona Benta Encerrabodes de Oliveira