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11 de ago. de 2013







Por ROBERTO VIEIRA

Poucas imagens no futebol são tão belas quanto às imagens em que Valentino Mazzola brinca com seu filho Alessandro. Alessandro que veio ao mundo duas vezes. A primeira no dia 8 de novembro de 1942. A segunda em um jogo contra o Brasil.

8 de novembro de 1942. Valentino embala Alessandro em Turim. Emilia dorme. Flores por todo o quarto. O mundo em guerra.

12 de maio de 1963. Domingo.

O retrato na carteira sorri. Mas o rosto de Sandro é triste. Ele gostaria de lembrar os olhos do pai, os gestos, a voz. Mas existe apenas este vazio, este silêncio. Lá fora estão os tifosi, milhares deles. Lá fora está o Brasil. Os bicampeões do mundo. Lá fora está Pelé. Lá fora estão nove jogadores do Santos campeão do mundo. No dia 11 de maio de 1947 a Esquadra Azzurra vencera a Hungria de Puskas: 3x2. Dez jogadores daquele time eram do Torino.

Talvez o Santos seja o novo Torino. Pelé e Coutinho. Loik e Mazzola. Será que eles têm medo de avião?

Os olhos de Sandro procuram na imagem amarelada uma resposta. Uma palavra. Na foto Valentino amarra suas chuteiras. Em completo silêncio. Sandro recorda das brigas dos seus pais. Lembra do dia em que disse adeus a sua mãe Emilia. Lembra do adeus ao irmão Ferrucio. Mas Sandro não consegue lembrar o adeus a Valentino.

Ele gostaria de perguntar ao seu pai como ele se sentira enfrentando a Croácia em abril de 1942. Como se sentira ao vestir pela primeira vez a azzurra. Como se sentira ao marcar o primeiro gol contra a Espanha alguns dias depois. Mas tudo é silêncio. Sandro veste a camisa da seleção pela primeira vez. A azzurra parece reconhecer um antigo dono.

Facchetti chama.

A esquadra azzurra entra em campo. L. Vieri, C. Maldini, Facchetti, Guarneri, Salvadore, Trapattoni, Bulgarelli, A. Mazzola, Sormani, Rivera, Menichelli. O Brasil vem com Gilmar, Lima, Rildo, Zito, Eduardo, Roberto Dias, Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé, Pepe.

A primeira bola lhe chega aos pés. Superga. Rildo desarma Sandro e lança Pelé. Trapattoni se antecipa. Aos 20 anos tudo é um sonho, mas o gramado em Milão começa a se parecer com o inferno em chamas. ‘Seu pai morreu, Sandro!’ dizem os amigos, os jornais, a Itália. Sandro pega a sua bola e vai pra o quintal jogar. Durante horas, dias, meses ele joga no quintal com a mesma bola com que brincava com seu pai. Durante anos.

4 de maio de 1949. Valentino volta pra casa. Imagina a alegria do filho quando lhe entregar a camisa do amigo José Ferreira, capitão da seleção portuguesa. Seus olhos observam a cidade de Turim envolta em névoa. A velha melancolia percorre seu rosto. Na carteira uma foto dos filhos Sandro e Ferrucio. Valentino fecha os olhos, triste. Lembra as lágrimas dos seus filhos quando ocorreu o divórcio. Filhos separados pelos pais. A vida não é tão simples quanto o cálcio.

Sandro recebe um passe de Maldini e chuta violentamente no gol de Gilmar. A bola se choca contra a trave direita. Pelé se machuca. O avião Fiat G.212 com a delegação do Torino da Itália se choca contra a Basílica de Superga. ‘Seu pai morreu, Sandro!’

Quatorze anos depois Sandro é escolhido para bater um pênalti contra os bicampeões do mundo. Por um instante Sandro recorda Bacigalupo brincando com ele nos campos de Turim. Valério Bacigalupo que deixava todas as bolas do menino Sandro entrarem nas redes grenás. Sandro olha para Gilmar e enxerga Valério.

Valentino recebe a bola de Loik e observa Zamora mal posicionado.

Enquanto a bola repousa sob seus pés, Sandro lembra. Tabela com a memória, como tabelava com o pai nas ruas de Giovinazzo. São decorridos 39’ do primeiro tempo. Sandro parte para a bola. Um chute mortal. Gilmar não consegue defender. Gol. De Alessandro Mazzola.

Valentino marca seu primeiro gol pela azzurra contra a Espanha. Valentino não sabe, mas Emilia está grávida. O herdeiro irá nascer no dia 8 de novembro de 1942.

Lágrimas caem dos olhos de Sandro em pleno San Siro. As arquibancadas se levantam em uníssono: ‘Mazzola, Mazzola, Mazzola!’. Valentino Mazzola emudece. O avião perde altura. Suas mãos agarram desesperadas seu bem mais precioso. Uma pequena foto com duas crianças nos braços do pai. O avião Fiat G.212 com a delegação do Torino da Itália se choca contra a Basílica de Superga.

Sandro desaparece sob uma pirâmide humana azul. Gol. O retrato na carteira sorri. A bola aterrissa nas redes. Sã e salva.

Seu pai vive, Sandro!’

14 de ago. de 2012




28 de mai. de 2012

















Por ROBERTO VIEIRA


A Jules Rimet era italiana.

Desde 1934.

A posse definitiva do troféu?

Seria do primeiro tricampeão.

A Copa de 1950 seria no Brasil.

São Paulo, a sede da squadra azzurra.

São Paulo tão italiana quanto Turim.

A seleção italiana apesar da guerra.

Apesar da devastação fascista e comunista.

A seleção era poderosa.

Graças ao fantástico conjunto do Torino.

Torino de Bacigalupo e Mazzola.

Torino que cedia os onze jogadores para a Nazionale.

Em 1948, pra checar o ambiente,

o Torino visitou o Brasil.

Levou multidões aos estádios paulistas.

Plantou a semente do Tri.

Mas, a história é perversa.

Um ano depois veio a Tragédia de Superga.

E o Torino desapareceu no desastre de avião que mudou o destino da bola.

A Itália veio ao Brasil.

De barco.

Foi desclassificada pela Suécia.

Mergulhou na escuridão do catenaccio.

Brasil e Uruguai?

Saíram contando vantagem.

Mas a Jules Rimet?

Essa era italiana.

Sempre foi...