Agosto de 1969.
Mestre Ivan Brondi está pensativo.
As dores eram insuportáveis.
Cirurgia.
Rápida.
Esperança.
Olhar perdido nas quatro paredes.
Gesso.
Sofá.
O que será do futuro?
Por EDGAR MATTOS
De uns tempos para cá ( década de 90 ? ), instaurou-se em nossos estádios uma prática copiada, certamente via TV, das "torcidas organizadas" dos clubes do sudeste, que se me afigura inconveniente e até mesmo reprovável. Refiro-me a esse exagerado culto ao craque de futebol, expresso na saudação do seu nome, bradado em coro entusiasmado e frenético a qualquer manifestação do seu talento. Sou de um tempo, não tão remoto, em que os "gritos de guerra" dos aficionados - no meu caso os alvirrubros - proclamavam, exclusivamente, o nome do nosso clube, soletrado no estribilho característico e tradicional das "sete letras mágicas": N-A-U-T- I-C-O ! Assim foi, por exemplo, na época da nossa mais vitoriosa jornada, a campanha do Hexa, quando nenhum dos tantos e maravilhosos craques daquele time fantástico mereceu essa particular exaltação, muito embora, a maioria deles ostentasse dissílabos eufonicamente fáceis de entoar: Na-do, Bi-ta, Ni-no, La-la, Ge-na, Lu-la, I-van....( reconheçamos que, no caso de Salomão, seu nome, do tamanho do seu talento, não seria tão facilmente proclamado no ritmo entusiasmado da galera ). Também, naquela época, tantos eram os craques, que difícil seria para a torcida eleger um único a ser brindado com uma singular homenagem. O que me incomoda nessa prática atual é a certeza da futura desilusão tão frágeis são, nesta época de lei Pelé, os vínculos que ligam os jogadores ao clube, laços que, por vezes, duram menos do que um só campeonato. Assim, freqüentemente, tem o torcedor o constrangimento de encarar como adversário o adorado ídolo da véspera, transmudando-se em manifestação de ódio, na mesma intensidade, o extremado amor de ontem, confirmando a máxima do poeta: "a mão que afaga é a mesma que apedreja..". Por outro lado, quando canta o nome do seu eleito, a ensandecida platéia estimula o individualismo, a inveja, a ciumeira, em detrimento do espírito de equipe, do sentimento que dá força ao grupo, não fosse o futebol esporte coletivo no qual ninguém é capaz de triunfar sozinho.
Além disso, esse excessivo prestígio concedido a um determinado jogador serve apenas para valorizá-lo, demasiadamente, contra os interesses do próprio clube, dificultando a renovação do seu contrato ou favorecendo antecipados pleitos de aumento salarial.
Por tudo isso, recuso-me a participar dessa insensata idolatria, reservando-me a externar o meu entusiasmo apenas em relação ao Náutico nome certamente muito maior do que o desses eventuais ( e falsos ) ídolos de prestígio tão fugaz quanto a sua passagem pelo clube Assim, em relação aos nossos atletas, poupo-me de decepções, manifestando-lhes minha admiração e o meu apoio apenas através do aplauso tradicional: as palmas. Ou, para ser ainda mais preciso, vibro com a jogada, não com o jogador. Acho essa uma atitude mais equilibrada para o relacionamento de cada torcida com os profissionais do futebol do seu clube. Nem o incenso desmedido, a idolatria apaixonada, nem a repulsa desvairada, a humilhação da vaia, a ofensa moral e até a agressão.
No entanto, para demonstrar que não sou assim tão infenso a essa prática de proclamar, de viva e entusiasmada voz, destaques futebolísticos, previno aos companheiros alvirrubros: quando quiserem "gritar" o nome de Ivan Brondi, líder e capitão de todas as equipes que fizeram a gloriosa jornada do hexacampeonato; craque que, formado nas divisões de base do Palmeiras, não conheceu, como atleta profissional, outra camisa que não a alvirrubra do nosso Náutico, clube que, até hoje, recebe sua devoção em forma de trabalho dedicado ao nosso Centro de Treinamento, - quando quiserem exaltar essa extraordinária figura humana, grande atleta e exemplar cidadão, podem contar comigo para puxar o coro desta que, neste caso especialíssimo, seria uma justíssima e merecida homenagem : I-VAN, I-VAN, I-VAN !
[IMAGEM]
Nos tempos do Hexa o futebol e o jornalismo engatinhavam.
Não tinha televisão colorida.
Tira-teima.
Tudo era na base da criatividade artesã.
Numa dessas criatividades, a equipe de jornalismo da Última Hora marcou época.
Colocando o nome dos jogadores na fotografia.
O Náutico vencia o Santa por 1 x 0. Gol de Ivan.
E na foto, vocês podem ver e saber que lá estavam Ivan, Bita, China e Salomão pressionando o tricolor.
Ou seja: Quem não tem computador caça com Olivetti...

A medalha de ouro no futebol masculino é um tabu.
Desafia gerações de brasileiros.
Em 1960, Roma assistiu a chegada de um dos maiores meio campistas da história.
Um rapaz cabeludo (ainda) nascido no Rio de Janeiro.
Um jogador que levava vantagem em tudo, certo?
Com 19 anos, Gérson de Oliveira Nunes era um menino do Flamengo.
Rival do seu Fluminense do coração.
Pois Gérson naufragou com a delegação em Roma, cidade fechada para o futebol brasileiro.
No dia 26 de agosto de 1960, Gérson marcou um gol na vitória de 4 x 3 sobre a Grã Bretanha.
Três dias depois, Gérson anota três gols na goleada de 5 x 0 sobre Taiwan.
Então, no dia 1 de setembro de 1960 o Brasil encara os donos da casa, os italianos.
O Brasil alinha Carlos Alberto; Nono, Decio, Dari e Roberto Dias; Rubens e Gérson; Wanderley, Paulinho, China e Waldir.
A Itália veio com Alfieri; Burgnich, Trebbi, Tumburus e Salvatore; Trapattoni e Rancati; Ferrini, Fanello, Rossano e Rivera.
Com dois gols de Rossano e um de Rivera, a Itália elimina o Brasil por 3 x 1.
Waldir anotou nosso gol de honra.
O Brasil terminou em sexto lugar na competição.
Gérson tornou a se encontrar com Burgnich e Rivera na Copa de 1970. Campeão.
Depois do fracasso na Copa de 66.
Como curiosidade Timbu, Ivan Brondi.
Ivan Brondi que era o reserva do Canhotinha de Ouro em Roma.
Ivan Brondi, juvenil do Palmeiras.
Mestre do Hexa alvirrubro anos depois.